As Mãos Sobre a Cidade é um filme italiano de 1963 dirigido por Francesco Rosi. O longa-metragem é um drama político que aborda a corrupção no setor imobiliário de Nápoles, mostrando como interesses privados influenciam decisões públicas.
A trama gira em torno de um empresário inescrupuloso que usa sua posição política para obter vantagens financeiras e construir edifícios em espaços públicos.
Em um bairro de Nápoles, um edifício desaba, deixando um grande saldo de feridos e mortos. O responsável pelo desastre é o empresário Edoardo Nottola, que é investigado, mas escapa impune. No partido ao qual pertence, seus companheiros o abandonam e retiram sua candidatura às eleições. Mas Nottola, inflexível e arrogante, inverte a situação e se torna o primeiro candidato ao grupo de centro, com a proteção de alguns conhecidos corruptos. Nottola reproduzia a maneira de agir de uma parte do empresariado (grande ou pequena, a conferir) que na vida política julga que a indignação moral é uma mercadoria sem valor e que o único pecado que pode cometer é o de ser perdedor.
O escritor norte-americano Gore Vidal (1925-2012) morou em Roma e costumava passear todas as manhãs em volta da quadra em que residia. Nas calçadas, conversava com verdureiros, açougueiros, alfaiates, jornaleiros, etc., e deles ouvia o que pensavam sobre os últimos acontecimentos sociais e políticos ocorridos em Roma, na Itália e no mundo. Gore então obtinha diversas versões de como pensava politicamente o povo italiano em geral e se dava conta de que não era exatamente aquilo que lia e ouvia nos grandes meios de comunicação.
Assim, Gore percebeu a importância das calçadas e áreas públicas nas grandes cidades modernas e que elas são as condutoras importantes do fluxo de informações entre seus habitantes. Nos espaços públicos, ruas, calçadas, praças, orlas, seus usuários aprendem uns com os outros porque se cruzam entre si e se trocam informações úteis ou apenas divertidas. E assim, facilitam e possibilitam espaços e tempos de comunicações importantes entre estranhos em grande número e em meros encontros acidentais. Sem as calçadas e os demais espaços públicos, os habitantes citadinos seriam como formigas que se orientam e se organizam apenas pelo olfato e sem esse sentido teriam um pequeno número de operárias, o que dificultaria a sua sobrevivência. As calçadas produzem o tipo correto e a quantidade de interpretações dos fatos locais e são as junções da vida nas cidades. Gore Vidal, assim, percebeu que a ausência de calçadas, praças e outros espaços de usos comuns nas grandes cidades induz como subprodutos a incomunicação, a solidão, a depressão emocional, as quais podem gerar violências, assassinatos e mesmo suicídios.
Jorge Luis Borges dizia que Buenos Aires é uma cidade dos restaurantes, cafés e livrarias, espaços públicos nos quais grupos de intelectuais em noitadas habituais terçavam ideias literárias de teatro, cinema e de arte em geral e delas surgiam e elaboravam histórias, contos, poesias, letras de tangos e ensaios políticos controvertidos de ampla e rica diversidade cultural.
O choque e as contradições das ruas e calçadas das megalópolis – em oposição às segregações assépticas dos condomínios fechados e das inexpugnáveis torres de concreto e vidro fumê – tornaram-se uma virtude em si, algo a que as pessoas deveriam ser “expostas” para manter sua própria higidez emocional e física. Enfim, se elas ficassem de alguma maneira privadas dos conflitos teatrais das calçadas e praças, correriam o risco de se tornar seres vazios, com visões políticas e sociais historicamente conservadoras, intolerantemente preconceituosas e individualistas.
Até a era moderna, menos de três por cento da população mundial morava em comunidades de mais de cinco mil pessoas. Hoje, cerca de 70 a 80 por cento dos habitantes moram em ambientes urbanos, isto é, em termos quantitativos, nossa espécie é constituída – alma e corpo – por seres citadinos.
Nesse sentido – tem razão o arquiteto Carlos Ribeiro Furtado* aqui no espaço da Sler, quando afirma que: “A efetividade do planejamento está na sua capacidade de expressar as forças sociais, por um lado, e de agir sobre a estrutura econômico-social da sociedade, por outro. Neste sentido, devemos ter uma visão política do espaço, entendido como o locus privilegiado da luta de interesses, e não apenas como palco de uma acumulação “eficiente” para apenas alguns agentes econômicos. Um sistema urbano ineficiente gera deseconomias que afetam não somente as camadas sociais de menor renda que se espalham pela periferia, mas todas as classes sociais e, também, a economia local.
*Carlos Ribeiro Furtado é arquiteto formado pela UFRGS/RS com especialização em planejamento urbano e regional na USP/SP, planejamento urbano e habitacional no Bown Centrun/Rotterdam, mestrado em economia urbana na UCL/Londres e doutorado na UFRGS.
Franklin Cunha é médico e membro da Academia Rio-Grandense de Letras (franklincunha1933@gmail.com)
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Foto da Capa: As Mãos Sobre a Cidade / Divulgação

