No palco do Teatro Renascença, as atrizes e cantoras Deliane Souza, Eulália Figueiredo, Iandra Cattani, Luiza Waichel e Sofhia Lovison se multiplicam para viver a história da jornalista e escritora Jurema Finamour, a primeira mulher perseguida e presa pela ditadura militar no Rio Grande do Sul. Usam máscaras cênicas para destacar fases de uma pessoa destemida e condenada ao silêncio pela repressão. A peça “A Mulher que Virou Bode: A história Perdida de Jurema Finamour” revela as múltiplas faces, profissionais e pessoais, de uma trajetória que foi negada por décadas até que a jornalista e escritora Christa Berger, depois de uma pesquisa profunda, jogou luzes nessa escuridão e ousou escrever “Jurema Finamour: A Jornalista Silenciada” (Libretos, 2022). O livro inspirou e orientou a concepção do espetáculo dirigido por Marcelo Bulgarelli, que mistura, com raro talento e sensibilidade, teatro, dança, música ao vivo, depoimentos, pintura e documentário, espalhando emoção.
A esperança reverbera através da arte.
O que teria levado uma mulher a se transformar em bode? A pergunta que revela o apagamento histórico de Jurema inspirou Marcelo e a dramaturga Luiza Waichel a mergulhar nas causas que levaram ao esquecimento. A peça propõe uma viagem que resgata a história de Jurema, que também era poeta e tradutora. Além da biografia escrita por Christa Berger, o espetáculo utiliza textos de Jurema, principalmente do livro autobiográfico A mulher que virou bode, lançado em 1994. Bode expiatório por sua coragem, por suas atitudes, por todos os enfrentamentos, pelas perseguições sofridas e barbaramente silenciadas, assim como o silêncio em relação à sua vida pessoal. Para Christa, Jurema “compõe o arquivo das histórias de mulheres cujas proezas, infortúnios e escritos não encontraram guarida no seu tempo”.
A trilha sonora original do espetáculo é do cantor, compositor e instrumentista Antônio Villeroy, que vive em Lisboa. São 12 músicas cantadas ao vivo pelo elenco. A preparação musical é de Simone Rasslan e a assistência coreográfica de Carlota Albuquerque. A montagem é uma realização do Rakurs Teatro e o projeto foi viabilizado por meio de edital do Fumproarte, da Prefeitura de Porto Alegre, e de edital da Secretaria Estadual de Cultura/Sedac-RS, Lei Paulo Gustavo/LPG.
Ampliar a voz e destacar a trajetória da escritora e jornalista silenciada através das artes cênicas foi um dos desafios do diretor.
As pesquisas para a montagem começaram em 2023, os ensaios em 2024 e o nome da peça relaciona-se à obra autobiográfica. Só isso já foi motivo suficiente para a minha emoção. Mas a trajetória intensa desta mulher influente nas décadas de 1940 e 1950, que foi perseguida e silenciada pela ditadura militar brasileira, ainda ia me surpreender muito mais. O apagamento histórico de Jurema, repórter com experiência internacional, diretora de uma revista feminina, amiga de intelectuais e políticos da época, como Carlos Drummond de Andrade e Leonel Brizola, é doloroso. Jurema convivia com a elite intelectual da época, como Jorge Amado, Cecília Meirelles, Vinícius de Moraes e Pablo Neruda, mas foi esquecida por todos.
Sua escrita, profunda, poética e humana, provoca sem abrir mão de um humor sutil. Jurema colocava em palavras o que fervilhava internamente.
No livro, que hoje está nos palcos, encontramos memórias do golpe militar de 1964, além de notícias de jornais falando que ela era perigosa, subversiva, comunista, a segunda mulher mais procurada do Brasil, além de secretária de Leonel Brizola, o que nunca foi. De 1950 a 1960, viveu momentos de glória, mas foi silenciada com requintes de crueldades típicos da ditadura e morreu praticamente sozinha. A primeira mulher presa política no Rio Grande do Sul, em 1965, também foi cancelada por parte da elite intelectual brasileira, principalmente ao lançar o livro Pablo e Dom Pablo (1975), em que critica o comportamento do poeta chileno Pablo Neruda, de quem chegou a ser secretária, revelando as diferenças entre a vida privada e a pública do escritor, que admitiu ter estuprado uma empregada doméstica – “O poeta humanista e o homem mesquinho”, como definiu Christa.
Jurema nasceu em 1919, em São Paulo, e morreu em 1996 no Rio de Janeiro, para onde foi em 1937. Em 1938, publicou o livro de poesia “Madrugada Boêmia”. Trabalhou no gabinete do presidente Getúlio Vargas em 1943, ano em que entrevistou Pablo Neruda e ficaram amigos. Em 1947, lançou e dirigiu a revista Mulher Magazine. A partir de 1951, viajou pelos países do bloco comunista e publicou os livros “Quatro Semanas na URSS: Reportagens” (1953), “China sem Muralhas” (1956), “Coreia sem Paz” (1968) e “Vais Bem, Fidel” (1962). Trajetória e desafios que resultaram na sua perseguição pela ditadura militar instaurada no Brasil.
Mas ainda estamos aqui para fazer sua voz ecoar e chegar às novas gerações através da arte que nos salva!
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Após mais de um ano fechado para reforma, o Teatro Renascença reabriu em 27 de junho de 2025 para a temporada deste espetáculo instigante. Com o objetivo de oferecer ao público mais informações sobre Jurema, foi montada uma exposição sobre sua vida e obra, com documentos raros da pesquisadora Christa Berger e audiodescrição gravada. A exposição ficou aberta ao público, no saguão do Teatro, durante a temporada de sucesso e emoção! A proposta é ainda passar por várias cidades gaúchas, como Esteio, São Leopoldo, Santa Maria, Rosário do Sul e Livramento. A ideia original do projeto é chegar aos lugares por onde Jurema andou, suas rotas de fuga pelo estado em direção ao exílio.
Meu desejo é que o espetáculo siga sua jornada pelo interior do estado com sucesso. E que volte aos palcos de Porto Alegre!
Todos os textos de Lelei Teixeira estão AQUI.
Foto da Capa: Divulgação

