
“No tempo da ditadura é que era bom. Não tinha essa bandidagem que tem hoje. A gente não tinha medo de andar a pé durante a noite. Tinha polícia nas ruas. A gente se sentia mais seguro. A polícia só prendia quem aprontava. Não conheço ninguém que tenha sumido. A gente baixava a cabeça e ia trabalhar pra botar comida na mesa. Não tinha esse tal de crime organizado. O Brasil não era essa baderna.”
Não são minhas as frases que escrevi no primeiro parágrafo, e tampouco concordo com elas. São, nada mais, do que um compilado de opiniões que ouvi ao longo da vida, tanto de certos familiares quanto de alguns amigos, colegas de trabalho ou mesmo de pessoas que, de algum modo, cruzaram o meu caminho. Gente que atravessou os anos de chumbo acreditando viver, na verdade, tempos dourados. Tão alienados que se julgavam imunes, homens de bem, defensores da moral e dos bons costumes, incapazes de imaginar que um dia poderiam ocupar o lugar dessas histórias que ouviam e quase nunca consideravam verídicas.
Muitas dessas pessoas mudaram de posição nos últimos anos e hoje lutam por justiça e reparação histórica. Isso se deve não apenas às comissões criadas por órgãos governamentais, que tornaram públicos os crimes cometidos por militares, mas também à arte que, por meio do teatro, do cinema, da música e da literatura, devolveu voz a quem foi silenciado.
Infelizmente, ainda há os outros. Os que seguem incapazes de compreender os traumas de quem teve a dignidade ferida em uma sala de tortura. Os que não se dispõem a sentir o mínimo de empatia por quem viu um familiar ser arrancado de casa e, sem poder se despedir, nunca mais voltar. Presos à ilusão de que só era preso ou morto quem merecia, permanecem alheios à dimensão dessa violência e, por isso mesmo, incapazes de reconhecer a importância e a complexidade de um filme como O Agente Secreto, produção que, logo após Ainda Estou Aqui, levou o cinema brasileiro ao Oscar em 2025 e 2026.
Eles se tornaram patriotas que não torcem pelo Brasil e criticam qualquer tentativa de revisitar o passado. Preferem desacreditar testemunhos, minimizar a dor alheia, ridicularizar a arte que insiste em expor feridas ainda abertas. Recusam-se a aceitar que, enquanto uns seguiam trabalhando, cuidando da família e repetindo que “quem não devia nada não tinha com o que se preocupar”, a ditadura civil-empresarial-militar perseguia, torturava e assassinava pais e mães de família, estudantes, operários e professores. Que quem ousasse pensar diferente, compartilhar suas ideias ou agir de acordo com os próprios preceitos, contrariando as regras de uma sociedade excludente, era taxado de subversivo, terrorista ou imoral.
O Agente Secreto não é um filme de entretenimento, e talvez seja justamente por isso que tantos não o tenham compreendido. Ele se constrói por meio de metáforas, exige interpretação, atenção ao subtexto e alguma pesquisa histórica. Para acompanhar o enredo, é preciso saber que a lenda da Perna Cabeluda foi uma estratégia do jornalismo para dizer aquilo que não podia ser dito abertamente. Também é importante associar Tubarão aos anos 1970, período em que foi lançado, entendendo-o como símbolo do agressor, da ameaça constante que pairava sobre a população. E compreender que empresários, ao lado de setores do Estado, não apenas apoiaram, mas também se beneficiaram do regime, sustentando uma engrenagem movida pelo medo e pela repressão, como Henning Albert Boilesen, então presidente da Ultragaz, entre tantos outros. Também é preciso encarar que professores eram perseguidos, presos e mortos por ousarem discordar de acertos entre o governo militar e esses mesmos empresários que visavam “dar um banho de indústria” na universidade pública.
Mais do que um recorte da ditadura, o longa-metragem de Kléber Mendonça Filho é sobre a memória, ou a falta dela: um povo que já não se reconhece no próprio passado, um filho que não consegue lembrar do pai assassinado, uma imprensa impedida de nomear os fatos. Armando morre, e nem mesmo nós, que assistimos ao filme, sabemos exatamente como. Alguém esperava um desfecho diferente? Era assim que acontecia: as pessoas desapareciam, e a vida, do lado de fora, seguia como se nada tivesse acontecido. Quando muito, restava uma nota distorcida no jornal, uma versão mal contada, uma mentira que tentava explicar o inexplicável.
Não ganhamos o Oscar, mas isso pouco importa. Basta termos a chance de expor as injustiças e de recompor a história de todo o nosso país. Basta levarmos o nosso cinema para o mundo e sermos reconhecidos não só pelo futebol. Porque há muito mais a ser dito sobre nós. E, enquanto houver quem conte essas histórias com coragem e sensibilidade, nenhuma narrativa oficial será suficiente para encobrir o que precisa ser lembrado.
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