Quando comecei a assistir à série “Sereias” na Netflix, fui inicialmente atraída pela promessa de uma narrativa intensa, uma estética sofisticada e uma protagonista feminina forte – adoro a Julianne Moore. Eu, que não sou do tipo “maratonista de séries”, acabei assistindo todos os episódios em uma noite.
Não que seja o tipo de trama que nos atrai por ser propriamente espetacular, mas sim porque deixa os telespectadores em suspensão, tentando encontrar o nexo entre o título e a história. Confesso que fiquei a todo momento esperando as sereias serem desmascaradas. Achei que seria algo fantasioso, mas na realidade a trama traz mais do que isto. Aborda temas como a divisão de classes, feminismo e o poder de sedução, com toques de humor negro e um certo misticismo. E vai além. Traz ainda um tema interessante: a vilanização das mulheres.
A produção é bonita. A fotografia e a trilha sonora são melancólicas, os diálogos interessantes e as atuações são muito boas. Conforme passam os episódios, nos damos conta de que “Sereias” reconta uma história já nossa velha conhecida: a mulher como protagonista do caos. As três mulheres ali representadas são de uma forma ou outra culpabilizadas pelas dores dos homens ao seu redor. A lógica da narrativa acaba colocando todas como vilãs, mulheres catalisadoras do sofrimento masculino. Assim como as Sereias da mitologia, elas são retratadas como forças de sedução e desordem. Criaturas fantásticas que se tornaram arquétipos duradouros da mulher desejada e temida, que fascina e destrói.
Não é por acaso que nós, como espectadores, somos induzidos em diferentes momentos a sentir pena “deles” e não “delas”. Afinal, as mulheres têm personalidades complexas: uma sedutora, autoritária e controladora; uma ingênua, oportunista e gananciosa; e outra desequilibrada, livre e “pseudo” frágil.
Uma das melhores análises que vi sobre a série foi “Netflix’s SIRENS and the Culture of Villainizing Women”, vídeo publicado pelo canal StutterBox que traz uma discussão que analisa como as mulheres ainda são retratadas na narrativa audiovisual contemporânea. No caso de “Sereias” parece ter sido proposital, como crítica a este modelo.
As personagens femininas não são vilãs explícitas, mas construídas de forma a provocar crises existenciais, traumas e inseguranças nos homens que as cercam. Todos emocionalmente frágeis e confusos, confrontados com mulheres desafiadoras.
Esse tipo de narrativa exime o homem de responsabilidade emocional, colocando os seus erros, fracassos e desequilíbrios como reações compreensíveis ao comportamento feminino.
O vídeo nos conduz à reflexão de como a série criada por Molly Smith Metzler utiliza a vilanização feminina como artifício narrativo para fazer uma crítica pertinente de como produções audiovisuais de grande repercussão acabam contribuindo para o reforço de ideias misóginas e impactando a maneira como o público enxerga relações afetivas e responsabilidade emocional.
A análise do canal StutterBox acerta ao apontar que “Sereias” é uma reafirmação de um sistema simbólico enraizado na nossa cultura que não aceita mulheres como sujeitos plenos.
Tirando isso, ou com isso em mente, é uma série que vale a pena ser vista.
Todos os textos de Pat Storni estão AQUI.
Foto da Capa: Divulgação

