Foi lançado nessa 3ª feira o quarto estudo de um conjunto de oito insights da série Brasil Prateado que a consultoria Data8 produziu oriundo de três fontes: sua pesquisa Tsunami Prateado, 12 entrevistas em profundidade realizadas nas periferias paulistas e fontes de dados secundários de instituições públicas nacionais com a finalidade de apresentar “Velhices Periféricas: o descompasso entre os tempos de viver, trabalhar, cuidar e sustentar”, com brasileiros 50+.
Importante registrar que, se o público 50+ já é normalmente invisibilizado pelas estratégias públicas e privadas, com relação à pesquisa o mais comum é se encontrar dados sobre as classes A/B. Pouca ou quase nenhuma pesquisa até agora sobre as camadas da população C, D e E se possui, sendo valioso esse tipo de trabalho ora apresentado, pois retira da total invisibilidade as pessoas envelhecentes e envelhecidas periféricas brasileiras, mostrando seu potencial e suas vulnerabilidades (não confundir com fraquezas).
Sempre é bom lembrar
O planeta envelhece. Conforme a Organização das Nações Unidas declarou em 2024, a população com mais de 50 anos cresce numa proporção de 3% ao ano, chegando a quase 2 bilhões.
O Brasil envelhece. Em 2024, o país possuía uma população de 59 milhões de pessoas com mais de 50 anos. Até 2044, eles serão 44% da população.
Eles compram e serão cada vez mais importante
Em 2024, o consumo das pessoas 50+ representou R$1,8 trilhão de reais, a previsão é de que em 20 anos ele seja R$3,8 tri.
Os 50+ representarão 35% do consumo domiciliar privado em 2044. E, por conta da sua representatividade na população, em todos os setores da economia, cada vez mais serão necessários serviços e produtos para atendê-los.
Rótulos, preconceitos, discriminações
Dito tudo isso acima, é preciso esclarecer que “ninguém é igual a ninguém”. Você é única/o. Não caberia em nenhum rótulo.
Assim também quando falamos em velhices. Não podemos colocar todas as pessoas num mesmo jeito de pensar, falar e agir. Isso tanto serve para planejar e realizar políticas públicas quanto projetos para empresas.
Quando tratamos sobre periferia, em alguma medida lidamos com rótulos que nos levam a preconceitos e discriminações, o que prejudica os resultados que poderíamos obter. Portanto, aprofundar-se na diversidade das velhices e nas suas características enriquece o pensamento e nos dá novos olhares ou traz argumentos para quem já conhecia.
No Brasil, os moradores de comunidades e favelas formam uma população tão relevante que, se fossem reunidos em um estado, formariam o 4º mais populoso da nação, atrás apenas de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, com 16,4 milhões de moradores. O país que mais cresce está aqui. Cheio de nuances, temperos regionais, diferenças culturais, porém com muitas semelhanças que foram apontadas por este estudo que conheceremos a seguir.
Os 4 tempos
O estudo abordou as velhices periféricas 50+ focalizando-as a partir de “quatro tempos”: lifespan, moneyspan, healthspan, workspan, compreendendo que a longevidade não se resume apenas ao quanto tempo se vive, mas também a como esse tempo se distribui entre a saúde, o trabalho e a autonomia financeira. A diferença entre o tempo que se vive e o tempo em que se vive bem. É a partir destes quatro vetores que o estudo apresenta seus resultados.

Qual é a velhice das bordas
O perfil da velhice periférica 50+ é negro (70% se autodeclara negra ou parda), feminino (54,6%, no geral, 59% na D), chefe de família (43% sustenta filhos e/ou netos), morando em lares multigeracionais (4 pessoas por domicílio, nos quais 23,5% são solteiros e 16% são separados) e professam a fé evangélica (31%).
A partir deste perfil, podemos inferir sobre o racismo e o machismo estrutural da nossa sociedade, que irão refletir nesta grande desigualdade social representada neste perfil, gerando menos renda, menos saúde, maior necessidade de trabalho ao longo da vida – inclusive durante a velhice –, menor proteção.
Também a partir deste perfil pode-se perguntar: onde estão os homens negros? A resposta também encontraremos, em grande medida, no racismo estrutural, pois é deles a menor expectativa de vida entre pessoas brancas e negras, em grande parte porque morrem mais cedo por conta da violência quando jovens e das dificuldades enfrentadas com o acesso à saúde.
O tempo do trabalho
“O brasileiro periférico não se aposenta, se reinventa.” Trabalhar no envelhecimento não é opção ou escolha de propósito, é uma questão de sobrevivência.
· Apenas 33,8% têm a aposentadoria como fonte principal. Destas, 52% dos aposentados da classe D continuam trabalhando.
· 41% dos brasileiros periféricos 50+ das classes C e D sobrevivem de trabalhos autônomos.
· Apenas 2% das velhices periféricas 50+ possuem previdência privada.
· Enquanto a renda média mensal de uma pessoa 50+ das classes C/D é de R$ 1.600,00, a de uma pessoa 50+ das classes A/B é de R$ 7.800,00.
O que foi observado pelo estudo é que as pessoas 50+ na periferia trabalham a vida toda e na velhice precisam continuar trabalhando porque não possuem segurança financeira.
O tempo do dinheiro
Na periferia, comprar significa administrar a escassez. Assim, a lógica é a do preço e promoção. Pesquisa-se cada item, procura-se qual é o melhor e de maior qualidade, porque é necessário que seja algo que irá durar muito e bem. Assim, quando este item entrar em promoção, ele será adquirido, em quantas parcelas forem necessárias.
Ainda assim, apenas 28% dos 50+ da classe D se dizem reconhecidos pelas marcas. Somente 3 em cada 10 acreditam que existam produtos pensados para suas rendas, suas rotinas e seus corpos.
Para as classes A e B, sabemos que sobram soluções e projetos de serviços e produtos, resta saber quando serão reconhecidos esses grupos de pessoas que também giram a economia.
O tempo da saúde
Plano de saúde é o SUS. E o jeito é aguentar a dor até não dar mais conta. A saúde periférica é reativa e coletiva. O cuidado começa quando o corpo já pede, não antes.
· 42,5% dos 50+ C/D nunca tiveram plano de saúde.
· 61% têm a UBS como principal porta de entrada.
· 38,3% se sentem muito sozinhos (47,6% classe D).
Outro aspecto da saúde é com relação à conexão social, essas velhices vivem em casas cheias, mas possuem vidas solitárias. Não é falta de gente, é falta de cuidado. Quando a saúde falta, por exemplo, o balanço se desequilibra e os familiares precisam ir atrás do dinheiro para complementar a renda que deixará de vir, e quem ficará com o encargo de cuidar dessa pessoa idosa que ficou sozinha? Às vezes, é feito por uma vizinha ou pela comunidade da igreja. Nas classes mais abonadas, o cuidado é terceirizado; na periferia, ele é internalizado e exaustivo.
O digital é espaço de pertencimento
Esse é um paradigma que precisa ser quebrado. A crença de que pessoas 50+, em especial as mais pobres, não acessam e não conhecem internet e redes sociais. Os números têm apresentado um crescente aprendizado desses meios e a importância deles na socialização das pessoas, para o bem e para o mal.
É por meio das redes sociais que buscam convivência com suas amizades e família, praticam sua fé, encontram aprendizado, saem da solidão, utilizam como ferramenta para acessar o mundo.
· 65% dos 50+ C/D acessam internet todos os dias.
· 94% usam WhatsApp.
· 72% usam o Facebook.
· 41% usam Instagram.
· 35% fizeram compras on-line.
No entanto, nem empresas nem governos têm pensado em app para esse público que tem características próprias e importância estratégica variada em uma série de políticas públicas, por exemplo.
Equilíbrio
Conseguir equilíbrio nesses 4 tempos das velhices periféricas é um grande desafio que, em grande medida, depende muito mais de políticas públicas do que do esforço individual e discurso de merecimento próprio.
Aprofundar esse estudo por regiões brasileiras também seria muito rico, pois cada uma provavelmente tem suas características próprias advindas da sua diversidade cultural. Aplaudo essa iniciativa por si mesma, pois compreender a periferia brasileira é também entender o povo brasileiro, que é quem toca a nossa economia real.
Todos os textos de Karen Farias estão AQUI.
Foto da Capa: Gerada por IA.

