A cabeça semi-erguida de Ísis permitia ao olhar se infiltrar por entre os velhos galhos do flamboyant. A visão embaçada da torre da capelinha de pedra provocava-lhe uma romaria de reminiscências da infância – a cerimônia da primeira comunhão sendo a mais insistente. A garota encontrava-se, nesses últimos dias inusitados da sua vida, em uma sala vazia de um casarão antigo do seu bairro. Há três semanas, nas terças e sextas-feiras, no mesmo horário matutino, ela ia lá posar, nua, para o jovem pintor, que mal conhecia. Só sabia que era inglês e se chamava Edward – caíra como que de paraquedas no seu círculo de amizades do intercâmbio cultural.
Pois era, assim, desnuda, que Ísis lembrava do vestido branco de piquê, com nervuras no peito e manguinhas bufantes, das alvas meias até os joelhos, o véu de renda sobre os cabelos escorridos. A preparação do coração e do corpo para receber a comunhão se constituíram um mistério naquela idade de sete anos. Ainda agora, com seus 16 anos, não compreendia muito bem, mas se justificava nua como um ato de rebeldia. Ou, como um instinto, afinal, na natureza, só nós usamos roupas, pensava. E sou dona do meu nariz. Faço o que quero e não darei satisfação a quem quer que seja. Sacudiu a cabeça, zombando dos pensamentos – talvez fosse tudo bobagem, nem sabia ao certo por que estava ali, só sentia que alguma coisa se remexia desde as suas entranhas.
— Do you want to take a break? (Você quer fazer uma pausa?)
— No, let’s continue. (Não, vamos continuar.)
Ísis devia permanecer imóvel, sem mover qualquer músculo para atender ao artista. Sua posição era a seguinte: o corpo suavemente ereto, o rosto num perfil de 45º à direita, os cabelos derramados em cachos dourados sobre o ombro esquerdo, as coxas, roliças e rijas, juntas, mas sem se encostarem, evidenciando seus pelos pubianos intocados; os braços semi-erguidos, na altura dos seios pequenos, de miúdos mamilos; as mãos pendiam dos pulsos apoiados sobre duas colunas antigas de madeira – muito semelhantes àquelas com cachepôs de orquídeas na sala social da casa dos pais. À sua volta, nada. Ela tentava imaginar o que o pintor colocaria de fundo ao seu corpo. Mas era uma curiosidade desinteressada, facilmente vencida pelas lembranças e ideias que lhe assaltavam.
Lá fora, os raios do sol dançavam, alvorotados, como se fossem independentes do seu núcleo, e venciam as copas das árvores do jardim. Ao chegarem à janela de fronteira da cena de nudez, escorriam tristes contra o vidro, barrados pela espessa poeira. Podiam apenas espiar a sala em penumbra, como um santuário – um silêncio profundo dominava o ambiente, a casa, o pátio, a rua, o bairro. Era como uma conspiração muda a testar os conceitos engatinhantes da adolescente.
Pois o fundo da tela que Ísis não conhecia já estava lá: um enorme par de asas sem contorno nítido, que descia de cima da sua cabeça até os calcanhares. O artista esboçara a menina delicadamente suspensa no ar pelas asas. Uma virgem que ele concebera anjo, ao ver, numa tarde daquele tórrido verão sulino, as omoplatas tão salientes, como cotos de asas, nas suas costas. O rosto redondo de maçãs rosadas e uma penugem de pêssego dos maxilares até o fim das orelhas, a boca desenhada sob o nariz arrebitado e o olhar de saltimbancos terminaram de o fascinar ao limite da arte. Depois de conseguir a textura da pele que perseguia, ele agora pincelava o rosto da menina, sem evidenciar seus traços. Até que, na última sessão, numa sexta-feira, conseguiu, enfim, captar o que era o principal: a intensidade da luz nos olhos daquele anjo serelepe.
Foi com um suspiro seco e curto que disse:
— Thank you, Ísis, we finished. (Obrigado, Ísis, terminamos.)
— Ok.
A garota vestiu a calcinha de algodão, a calça Saint-Tropez e o bustiê indiano. Calçou o chinelo de couro e pegou a bolsa de batik no chão. Encaminhou-se para a saída da casa, já despedindo-se e também agradeceu ao pintor.
– Don’t you want to see a picture? (Você não quer ver o quadro?)
– No, thanks. See you around. (Não, obrigada. Nos vemos por aí.)
Cruzou a porta, ajeitando as asas de forma que passassem pelo batente estreito. O sol a esperava, radiante, oferecendo o céu mais azul de todos os seus dias para o voo inaugural de domínio do seu corpo. Ísis abriu as asas, tomou impulso e ganhou um pouco de altura. Passou pela escola e, adiante, espiou a igrejinha. Percorreu algumas ruas do bairro, subiu mais e viu a sua casa, pequenina, lá embaixo. Logo depois, o clube onde tivera o baile de debutante – resolveu se divertir com uma rasante por cima da piscina, e, nas escadarias da entrada, perdeu um pé do chinelo. Retomou altura e seguiu em direção ao rio e, depois, ao mar. E, então, se soltou plenamente: mergulhou e emergiu em alta velocidade, várias vezes, brincando e rindo como os golfinhos. Sentiu um prazer quase doído de tão intenso a se desaguar por dentro dela, que num futuro próximo conheceria o nome.
Satisfeita e exaurida, redirecionou o voo até o bairro e, já no trajeto para casa, passou rapidamente no clube para resgatar o chinelo perdido. No pátio da casa, acenou para o jardineiro, que parecia sempre intrigado com seus movimentos. Passou pela cozinha, deixando um rastro molhado e os protestos da querida Anastácia para trás. Encontrou a família reunida à mesa, já no final do almoço. Sentou-se, ainda ensopada, no seu lugar e, antes que o pai falasse qualquer coisa, tirou o solitário de diamante do dedo anular e o largou dentro do copo de água à sua frente. Os olhos de saltimbancos enfrentaram todos os outros e Ísis achou curioso que só mirassem do seu rosto ao copo, como se suas asas não existissem!
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Foto da Capa: Gerada por IA.

