
Ter consciência de que as mulheres negras seguem sendo o grupo mais afetado pela desigualdade econômica no Brasil, e que elas possuem a menor renda anual média do país, desanima. Porém, não nos paralisa.
Especialista em projetos de impacto social e pesquisadora em economia do cuidado, Camila Santos fez um alerta, em artigo para a Alma Preta, agência de notícias e comunicação especializada na temática étnico-racial no Brasil. Ao abordar o Dia Internacional da Mulher, referiu que pensar a partir da experiência das mulheres negras exige ampliar o próprio sentido da emancipação feminina, afinal, desde sempre são elas que garantem a maior rede de cuidados, organizam formas de sobrevivência econômica, sustentam famílias inteiras e lideram processos comunitários, culturais e políticos. A autora coloca essa leitura no tempo passado, mas entendo que a lógica persiste.
Em contraponto, quem se beneficia desses cuidados prospera intelectual e financeiramente.
Pensando que há 138 anos pessoas escravizadas deixaram de ser consideradas coisas, passíveis de serem objeto de compra e venda, e sem que a Lei Áurea tivesse previsto políticas públicas para sua inserção na sociedade, como poderia ser pensado o planejamento de ascensão econômica da população negra?
Naquela época, seria impossível imaginar Lisiane Lemos como especialista em tecnologia, criadora de conteúdo, professora, cofundadora do Instituto Conselheira 101 e secretária extraordinária de Inclusão Digital e Apoio às Políticas de Equidade do Governo do Estado do RS, tendo como propósito tornar a tecnologia acessível para todos.
Tampouco seria concebível pensar que Luana Ozemela, economista de formação, que transitou por organizações sociais, empresas de tecnologia e iniciativas internacionais dedicadas ao debate sobre desigualdade e inclusão econômica, poderia estar à frente da área de sustentabilidade do iFood, hoje um dos cargos mais estratégicos do debate contemporâneo sobre impacto social no setor privado.
Para quem gosta de saber das origens, vale mencionar que essas duas lideranças negras, com alto grau de engajamento e nível de excelência internacional, são gaúchas.
A partir da compreensão de desigualdades históricas e da consciência da necessidade de avanços como ato de reparação, a Escola Nacional de Administração Pública (ENAP), em parceria com o Ministério da Igualdade Racial, desenvolveu o Programa Formação e Iniciativas Antirracistas (FIAR), que capacita servidores federais para combater o racismo na administração pública e ampliar a ocupação de cargos de liderança por pessoas negras.
Vale lembrar que, em discurso na abertura da 78ª Assembleia da ONU, em 2023, o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva apresentou a proposta de criação de um Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para a promoção da igualdade étnico-racial, visando eliminar o racismo e a discriminação étnico-racial contra povos indígenas, afrodescendentes e grupos populacionais afetados por múltiplas formas de discriminação.
Tanto o programa quanto a proposta do ODS 18 foram validados e devem ser monitorados pela sociedade, para que se mantenham ações efetivas e não caiam no vazio de iniciativas coletivas ousadas, pela dificuldade inerente de realizá-las.
No projeto Cenários Futuros para a População Negra no Brasil, o Cenário Sankofa representa Ascensão Econômica, (re)colocando o Brasil no lugar de potência emergente, em que são garantidas geração de mais empregos e fortalecimento do Estado.
Isso acontece por meio de lideranças negras, como Lisiane e Luana, que atuam no setor público e privado promovendo melhorias em busca de avanços que geram mais equidade.
A população negra, neste cenário, vivencia a ascensão econômica fruto de maior qualificação, do ingresso nas maiores empresas e do afroempreendedorismo, apesar de parte significativa ainda continuar na informalidade e trabalho precarizado.
Seu adinkra, SANKOFA, simbolizado por um pássaro com o bico voltado para trás, pegando um ovo, tem como significado dar a devida importância às lições e práticas do passado e utilizá-las para orientar o presente e o futuro.
Para pensarmos e, em seguida, agirmos: no que precisamos avançar? Quais estruturas ainda concentram a riqueza e dificultam a mobilidade real da população negra? Como você se propõe a construir algo para um novo cenário em 2050?
Este artigo segue a apresentação do projeto Cenários Futuros para População Negra no Brasil, do qual a Odabá é parceira institucional. Os artigos anteriores estão publicados na Coluna Odabá, na plataforma Sler, com os títulos: Seja bem-vindo”, 2050 – ODABÁ e Cenário Aya e o futuro da população negra. Nos próximos meses, seguiremos com os Cenários Umoja – Educação Antirracista que transforma, e Nkyinnkyim – Sobrevivência e Resistência.
Sobre os participantes e a iniciativa:
A temática dos Cenários Futuros para População Negra no Brasil foi idealizada por Vitor Del Rey, presidente do Instituto Guetto, instituição sem fins lucrativos que desenvolve pesquisa e indicadores, consultorias e treinamento nas áreas de inclusão e diversidade, direitos humanos e capacitação profissional, com vistas a combater as iniquidades raciais e de gênero no ambiente institucional.
A construção do projeto adotou a metodologia da Reos Partners, organização internacional focada em grandes questões sociais, atuando na construção de cenários futuros e transformação. Além dos citados, são parceiros dos Cenários: Frente Nacional Antirracista, Ashoka Brasil, Fundação Itaú, Fundação Lemann, Instituto Unibanco, Instituto GOL, Banco do Brasil Sede I, Malala Filmes e Samara Cruz.
Fontes:
Mulheres negras têm a pior renda anual média do Brasil, aponta relatório da Fazenda.
A emancipação da mulher negra é coletiva.
Lisiane Lemos
Quem é Luana Ozemela, executiva que discute desigualdade dentro do iFood
Programa Formação e Iniciativas Antirracistas (FIAR)
Denise Ribeiro Denicol é entusiasta da saúde mental no ambiente de trabalho e tem se ocupado de provocar esse cuidado também com o recorte racial. Sempre disposta a conversar sobre temáticas relacionadas ao fortalecimento de mulheres, maternidade, trabalho e dinheiro, é Advogada Trabalhista, Diretora Jurídica da ODABÁ - Associação de Afroempreendedorismo e parceira do escritório Baladão e Fagundes.
Instagram: @deniseribeirodenicol
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Foto: Adinkra Sanfoka sobre foto de Samara Cruz / Divulgação

