O texto sou eu dentro de um avião, sentada na poltrona 4A e não na 3A, que quase sempre consigo. Tenho alguns lugares de estimação. Em salas de cinema, sou um H8. Quando dá, é claro, e me organizo para garantir esse assento. A maior parte das coisas dá certo se a gente não as deixa para a última hora.
Minha avó dizia: “Por mim, ninguém espera”. Gostava de facilitar a vida. Tem gente viciada em dificultar. Padrão abismo, pura neurose. Eu sou analisada. Dezesseis anos de divã. Bastante, não é? Hoje em dia, levando em conta que já vivi meio século, me parece pouco.
Mas voltemos a mim dentro de um avião. Durante a maior parte da viagem, olho as nuvens. Quando a comissária de bordo fala ‘estamos passando por uma área de turbulência’, meio me cego. Por um segundo, talvez até menos, fecho os olhos e penso: e se essa coisa resolve cair justo hoje em que volto para casa depois de cinco dias felizes. ‘Se um dia feliz é muito raro’, cinco nem se fala.
Felicidade é um assunto sério. E sério é o que sinto quando penso no homem que brinca com o meu nome, como se eu vivesse na ponta da sua língua ou de seu silêncio. Sou uma mulher silenciosa, apesar de todo o meu falatório. Minhas palavras favoritas são sempre as próximas. Vêm a seguir feito as cenas de um próximo episódio.
“Feels like I’m holding you down, but you won’t leave me alone, and you’re holding me now, but I’m so far away from you”, escuto no Spotify. Haunted By You, do Future Islands, é o nome da música achada na minha pasta secreta de Achados e Perdidos. Uma das poucas que criei. A pasta de Músicas Curtidas do próprio aplicativo, no modo aleatório, dá conta das minhas sinapses, como se entre elas não houvesse preferências. Mais do que isso: não houvesse paixões.
Ah. Pelo homem que brinca com meu nome, sinto uma forte e falante. ‘Fale com ele’, a paixão cinematograficamente me diz. ‘Fale com ela’, não tenho dúvida, ele pensa enquanto tenta também, à luz do dia, fugir a pé de nosso impacto. Se me encontra, ele, que me oferece os passos gastos em diferentes direções antes da minha, como se as outras mulheres o tivessem preparado para o meu corpo e a minha mente, se derrete e fica. E aí, eu o memorizo e, outra vez, sinto, como de dentro do avião voando para o Sul. Tão perto, tão longe. Minha sorte, meu norte.
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