Tenho visto alguns jogos e parte de outros nessa que é a primeira Copa do Mundo de Clubes.
Tendo que confrontar as bilionárias equipes da Europa, vieram plantéis dos quatro cantos do planeta. Além do espetáculo da diversidade étnica das torcidas, os confrontos dignos de partidas de videogame são para mim um dos grandes atrativos do certame: Botafogo ganhando do campeão europeu; Flamengo fazendo três a um sobre o inglês Chelsea; Fluminense despachando o Inter de Milão. Há arranjos de partidas sonhadas por todo atleta de joysticks: campeões da Champions versus campeões da Libertadores; conterrâneos em seleções nacionais disputando a pelota sob cores adversárias.
Entretanto, o quanto que tem de videogame traz consigo também um tanto de simulacro: torcidas (empresarialmente) organizadas, emergenciais gratuidades de ingressos paliativas às arquibancadas vazias, equipes arquirrivais controladas pelas mesmas holdings de acionistas.
Daí, apesar da aguerrida participação dos clubes nacionais, o meu coração pendeu para o valente Auckland City. Minha admiração se instaurou pelo porte de dedicação e superação dos oceânicos. Distintos dos conjuntos formados por players de salários milionários, os Blue Marines jogam pela devoção à camisa (acredita-se que o soldo recebido pela totalidade de seus jogadores em campo está aquém da renda mensal do massagista do Real Madrid, o aristocrata clube espanhol). Os garotos da cidade maori são verdadeiramente entusiastas do futebol: são professores, gerentes, motoristas e outros profissionais, cujo amor ao esporte os faz arranjar tempo em suas rotinas para disputar o campeonato não apenas de seu país, mas do continente inteiro!
A estima com os destemidos neozelandeses cresceu quando da ciência de sua nomenclatura: Auckland City Football Club. Observem que não tem nada de Clube de Regatas (Flamengo…), Sociedade Esportiva (Palmeiras…), Clube Náutico (Capibaribe, o Náutico de Recife…), e, principalmente, nada de Sport Club (do Recife, o Sport…). É Football Club, assim como o meu Santa Cruz Futebol Clube, o tricolor do Arruda: nada de grêmio esportivo e, muito menos, nada de confraria de remadores, é Fu-te-bol-Clu-be.
Minha ligação aos aucklanders se aprofundou ainda mais quando tomei consciência da raríssima condição que os irmana a nós serpentes corais: sumos ambos tri-supercampeões! Os rapazes da Cidade das Velas ganharam por três vezes os três títulos que poderiam disputar num mesmo ano, feito inaugurado pelo Santinha em 1983.
Por conseguinte, nesta Copa não há quem espelhe tão por inteiro o autêntico espírito futebolístico (que também caracteriza o Santa Cruz) quanto os oceânicos. Pois, tendo levado um dez a zero do Bayern de Munique e um seis a zero do português Benfica, o time neozelandês não se abateu diante de um gigante argentino, o Boca Juniors, alma mater do imortal Maradona: empata em um a um, com gol de um colega de ofício, um professor ginasial!
A história econômica da humanidade ensina que nenhum tipo de empresa angariadora de riquezas perdura eternamente. Comércio fenício, caravanas da seda, armadas coloniais, corporações europeias e americanas, todas, um dia, chegaram ao fim… Porém, seguem vivos os amantes das maratonas municipais, dos barquinhos de velejo, do críquete no parque…
Portanto, nos aguardem, Sociedades Anônimas Futebolísticas…
Entoam em sua arena os guerreiros lá do Índico: “We’ll be coming! We’ll be coming down the road, when you hear the noise of the Auckland City boys!”
Que possamos todos nós, seja daqui da nascente do Atlântico, seja dos outros mares, enquanto praticantes puros, cantar em coral o mesmo refrão: Nós estamos chegando! Nós estamos chegando! Quando você escutar a zueira de nossa moçada, é porque nós já tomamos as Avenidas Beberibe!
Verdadeiros amantes do futebol: We’ll be coming!
Todos os textos de André Fersil estão AQUI.
Foto da Capa: Divulgação

