Como acontece todos os dias há várias décadas – é… existe um lugar que as mesmas pessoas frequentam há décadas – ele foi chegando, entre onze meia e meio dia. Repetiu, como sempre, o “bom dia, senhores’, se acomodou na ponta do banco mais próxima do balcão e pediu, como sempre e com o mesmo prazer: “um meio liso, dona Hilda”.
Parêntese: meio liso é uma medida de cachaça. Meio copo americano – aquele que não tem estrias – abastecido até a metade com a mais pura caninha. Fecho e retomo.
Naquela manhã de quinta, 5 de outubro, aniversário da Constituição Cidadã, um detalhe o diferenciava na chegada. A boina e as alpargatas surradas eram as mesmas. Mas, fato inédito, debaixo do braço ele carregava um jornal. Acendeu o Derby, que passou a fumar depois que deixaram de fabricar o Belmont. Encostou o pito na caixa de fósforos sobre o banco e abriu o jornal. Para susto de todos, já que as manifestações orais dele não passavam do bom dia, senhores, do pedido para dona Hilda e do até logo senhores depois de dois meio liso, ele disse, meio que pra ele mesmo, mas com clareza suficiente para todos ouvirem:
– Que barbaridade! No Rio, atualizaram o frase do Lúcio Flávio, assaltante de bancos na década de 1970 que, de tanto infernizar a polícia carioca, acabou executado pelo companheiro de cela com 28 facadas.
Ninguém disse nada. Era preciso ouvir com atenção aquele raríssimo discurso. E ele seguiu.
O Lúcio Flávio dizia que bandido é bandido e polícia é polícia. Agora, adaptaram a declaração. No Rio, bandido é bandido, polícia, milícia e traficante. E vice-versa… tudo misturado. Se não fosse assim, os três médicos que só queriam tomar uma cervejinha estariam vivos, o amigo deles, que escapou, não carregaria – para toda a vida – as marcas de 14 balas e a tristeza de ter visto os colegas caindo mortos ao lado dele.
A pausa para mais um trago do meio liso dá fôlego para seguir falando. É isso mesmo, tudo misturado. Bandido, polícia, milícia e traficante. É só olhar aqui no jornal… Tá escrito.
O carro usado no crime era monitorado há dias (só não foi rastreado no dia do crime, quando rodou 36 km sem ser parado), o endereço do miliciano parecido com o médico morto é conhecido, tinham interceptado até uma mensagem de voz indicando onde ele estaria, os assassinos dos médicos também estavam monitorados. Então, por que ninguém conseguiu impedir a chacina? Aí, poucas horas depois, a polícia é avisada (pela mílicia? pelo tráfico? por algum bandido?) que os assassinos dos médicos tinha sido justiçados…
Aponta o copo vazio para dona Hilda e, para espanto dos presentes, continua. Teve até autoridade dizendo que o Brasil não aceita que bandidos cometam crimes e resolvam os crimes… Resolver o crime? Diria melhor aquela autoridade garantindo que bandido nenhum vai esconder crime cometendo outro crime… Resolver, quem resolve é a Justiça.
O meio liso já era pouco menos de um quarto. Ele dá uma longa tragada no cigarro e, como quem vai encerrar o discurso, fecha o jornal, encosta no banco, toma mais um trago e continua:
– Enquanto não fizerem uma limpeza no sistema todo, enquanto não tivermos uma nova geração atuando nas polícias, nos presídios, nos abrigos de menores, enquanto o estado não entrar pesado nas comunidades, garantido escola, serviço médio, moradia decente, emprego digno, não haverá programa de enfrentamento ao crime que dê resultado.
Vejam, diz ele, numa das poucas vezes que passou o olhar pela plateia, descobriram que houve uma vídeo conferência transmitida de dentro de um presídio… E depois, recolheram 2 mil celulares com os detentos. Os telefones não entraram lá por obra do Divino… Então, tem que revistar todo mundo. E não só as mulheres, os filhos e os amigos dos presos.
Funcionários, agentes penitenciários, diretores. Revista em todos. Ah! E nos advogados também.
Inteligência é fundamental. Mas, se os bandidos jogam xadrez (sem trocadilho, por favor), não dá para enfrentá-los jogando damas.
Foto da Capa: Tânia Rêgo / Agência Brasil