1 – Quando eu era criança, em São Gabriel, de mês em mês meu pai nos levava, a mim e a meu irmão, para cortar o cabelo em uma barbearia que hoje se chamaria de “raiz”, mas que na época, como tudo era raiz, era chamada apenas pelo nome de seus proprietários, os barbeiros Kiko e Leão. Meu pai, aliás, adorava repetir o nome bem rápido e dar uma risada na sequência, para mim de modo gratuito – até que cresci um pouco mais e entendi o trocadilho sonoro malicioso formado pela repetição sem pausas de “Kikoleão”. Comecei a rir também depois que percebi a piada.
2 – Embora os dois barbeiros dividissem o estabelecimento, o nosso barbeiro “oficial” era o Kiko, um preto de aparência solene e voz retumbante que, enquanto dava um trato em nosso cabelo, conversava animadamente com meu pai, a quem eu via pelo espelho sentado tranquilamente em um sofá, passando sua bengala de uma mão para a outra. Íamos lá desde sempre, no que se refere ao meu ponto de vista, tanto que não sentávamos diretamente na cadeira de barbeiro, e sim em uma tábua apoiada nos braços da cadeira, que Kiko posicionava para que ficássemos em uma altura em que ele pudesse trabalhar com mais conforto. Aliás, identifico claramente como um dos momentos de passagem ritual da infância para a “vida adulta” o momento em que, ali pelos 10 anos, acho, Kiko retirou a tábua e eu pude ter o cabelo cortado sentado diretamente na cadeira.
3 – Sempre detestei cortar o cabelo – algo que se traduziria depois em duas décadas de vida usando o cabelo comprido, só interrompidos pelo avanço inexpugnável da genética, na forma da calvície. Mas, paradoxalmente, eu gostava de estar lá na barbearia, era um ambiente acolhedor, digamos, embora essa palavra não significasse naquela época o que veio a significar hoje. Era um lugar em que mesmo a bagunça era bem-humorada, as risadas eram sinceras, embora, em retrospecto, imagino que não os assuntos. Sendo meu pai metido com política, falava-se muito disso, mas também do futebol, das fofocas da cidade. Anos mais tarde, reconheci aquela atmosfera ao ouvir, na versão de Astor Piazzolla, o clássico do tango Cafetin de Buenos Aires, em que o “sujeito lírico” da canção faz o elogio de um boteco no qual fez amigos e aprendeu quase tudo: “Na tua mistura milagrosa / De sabichões e suicidas Aprendi filosofia, dados, carteado / E a poesia cruel / de não pensar mais em mim”.
4 – Não era um sentimento incomum esse meu. Barbearias são espaços tradicionalmente associados à sociabilidade masculina tradicional, não apenas no Brasil. Uma das cenas mais interessantes de Gran Torino se dá quando o personagem velhote rabugento vivido por Clint Eastwood leva o jovem hmong Tao a um espaço onde possa ensiná-lo “como falam os homens de verdade”. O espaço, claro, é uma barbearia, na qual Clint, cliente fiel do estabelecimento, e o barbeiro grandalhão trocam as farpas irônicas comuns nesse tipo de sociabilidade masculina. Quando o garoto resolve tentar ele mesmo, claramente perde a mão e insulta o barbeiro, embora seja compreensível sua confusão quando não entende direito o que ele havia feito de errado, já que ele repetiu algo que o próprio Clint disse ao entrar. Clint e o barbeiro passam então a ensinar o jovem no tipo de conversa apropriada para interações sociais com outros caras que não são necessariamente seus amigos – a lição inteira pode ser resumida à fala “seja educado, mas não puxe o saco”, mas também há dicas como “reclame de alguém que não esteja presente”.
5 – O filme é de 2008, e de lá para cá muitas questões já foram levantadas sobre os prós e contras desse tipo de sociabilidade masculina meio estereotipada. Um dos indícios que vejo dessa mudança é o fato de que, pesquisando textos acadêmicos para me ajudar a refletir um pouco no que eu queria dizer neste texto, encontrei um grande número de etnografias sobre barbearias tradicionais. Para quem não é ligado no jargão acadêmico, etnografia é um método de pesquisa muito frequente na antropologia e na sociologia, no qual o pesquisador emerge no cotidiano e nas práticas de um grupo social específico, tentando reconstituir por meio desse mergulho uma visão de mundo. Digamos (e eu só vou dizer isso porque o pessoal acadêmico meio que desdenha muito do jornalismo na prática, e então provocar a ira do pessoal vai ser divertido) que a etnografia é um tipo de grande reportagem feita com muita imersão e paciência, mas as ferramentas são as mesmas nos dois casos: você precisa estar lá, observar com atenção, perguntar quando necessário e ouvir com cuidado e sem julgamento.
6 – Embora não seja usada só para isso, a etnografia é empregada frequentemente para tentar capturar e preservar recortes de culturas em um momento de crise, de estagnação ou até mesmo de risco de desaparecimento, e foi essa a abordagem que encontrei em vários desses trabalhos, feitos em barbearias tradicionais hoje em rápido processo de desaparecimento, substituídas pelas barbearias “topzeras” que se espalham por toda parte. A barbearia que aparece nesses trabalhos não é o modelo de sociabilidade de uma masculinidade hoje em crise, mas o exemplo de um modelo econômico prestes a ser substituído.
7 – Encontrei a respeito um artigo muito interessante nessa linha, de um acadêmico de Belém do Pará chamado Pedro Paulo de Miranda Araújo Soares, que realizou a etnografia das barbearias da zona central de… Porto Alegre (leia aqui). Seu foco é na tradicional Barbearia Elegante, que, pela proximidade histórica com o Everest Hotel, chegou a atender até mesmo celebridades que se hospedavam no estabelecimento. Como analisa o autor ao relatar as entrevistas do proprietário da Elegante, Seu Renato, na descrição que o barbeiro faz dos seus tempos antigos de profissão, “emerge a imagem romântica da barbearia enquanto um espaço de sociabilidade masculino onde a cidade é praticada e narrada. Os senhores idosos frequentadores da barbearia, cuja presença é evocada por Seu Renato, representam a própria nobreza moral daquele lugar, ao mesmo tempo em que as crianças tornam a barbearia um espaço familiar ao adentrarem”.
8 – Pensando nisso, fica mais fácil compreender por que uma barbearia é o ponto de partida e mesmo o horizonte de progresso da trama de um romance como Cosmópolis, de Don DeLillo, sobre o qual já escrevi mais detidamente aqui . O meu prazo para entregar o texto está meio se esgotando, então permitam usar um trecho desse outro artigo aí para lembrar a vocês a trama de Cosmópolis, na qual um financista de Wall Street extremamente jovem “decide, num impulso caprichoso, que gostaria de cortar seu cabelo no mesmo barbeiro que o atendia na infância, numa vizinhança algo afastada de Manhattan. A tarefa se torna uma espécie de jornada lenta e excruciante porque as ruas do centro financeiro da maior cidade do mundo estão bloqueadas pela polícia ou congestionadas de manifestantes que protestam contra a visita à cidade do presidente dos EUA. O personagem não precisa dessa viagem toda para cortar o cabelo – quase toda a narrativa o mostra fazendo praticamente tudo dentro do carro, inclusive uma consulta a um urologista que é apanhado pelo veículo especialmente para isso. Ele apenas quer ir até o barbeiro. E não consegue, por razões que – no alheamento tornado possível pela astronômica fortuna que ele pode estar perdendo por insistir numa série de investimentos arriscados – ele não compreende muito bem. Por que tanta comoção pela visita de um presidente quando o real poder do país são caras como ele, viajando naquela limusine trancada no trânsito? ”
8 – Relendo meu próprio texto, vejo que deixei de falar uma coisa importante – o que foi bom, porque agora posso falar do mesmo livro/filme sem me repetir. A questão que se coloca com a viagem impulsiva e inútil do executivo ao barbeiro de sua infância não é a simples dificuldade para que a limusine do ricaço cruze a cidade. Claramente, o impulso, no livro – e menos no filme adaptado a partir dele –, parte de um desejo escapista. O jovem executivo está tendo um dia de desespero, não pelo engarrafamento provocado pelos protestos na cidade, mas também porque alguns dos investimentos arriscados pelos quais pessoas como ele costumam ser elogiadas estão fazendo-o perder milhões de dólares por minuto, sem tendência visível de recuo. Ele é casado com uma mulher com quem se encontra três vezes ao longo do dia, quase como se fossem estranhos. Confrontado com a evidência de que a intuição que o faz ganhar bilhões talvez esteja derretendo, o espaço da barbearia em que cortava o cabelo na infância, longe do centro financeiro, do tumulto, dos protestos e do engarrafamento, é perseguido como um retorno: à infância, a um tempo mais simples e mesmo à segurança familiar (quem o levava ao barbeiro, ele menciona várias vezes, era o pai), numa espécie de Odisseia menor do grande mercado especulativo. Com todo o seu poder financeiro e afastado da realidade pela sua fortuna, é como se o protagonista do romance buscasse o refúgio na infância em que a barbearia representava tudo o que também representa, a seu modo, em Gran Torino, um espaço em que se ensinavam os códigos performativos da masculinidade. Não à toa, no clímax do filme, o executivo terá que enfrentar uma situação extrema só com metade de seu cabelo cortado.
9 – Não é a única obra construída em torno da relação peculiar de homens com a barbearia. História do cabelo é um romance publicado em 2011 pelo escritor argentino Alan Pauls. Integra uma trilogia de ficções em que o autor parte de elementos que considera definidores do período da ditadura militar para capturar, de forma crítica, a condição de ser “argentino”. O primeiro volume, História do pranto (2008), tem como ponto de partida a onipresença das lágrimas na trajetória da esquerda argentina no período ditatorial, narrando a trajetória de um menino nos anos 1970 cujas certezas formativas vão se desfazendo diante de um mosaico de personagens que tentam sobreviver à opressão do regime. O terceiro, História do dinheiro (2014), apresenta um protagonista obcecado por dinheiro — uma obsessão que espelha a própria economia argentina, marcada por arbitrariedades e planos econômicos delirantes (algo que também ressoa para qualquer leitor brasileiro). Em todos os livros, há um personagem masculino sem nome, filho de pais divorciados. Embora as histórias evoquem os anos 1970, a narrativa é conduzida sempre no presente, e é a linguagem que sustenta essa trilogia suntuosa: frases longas, tortuosas, labirínticas. Em entrevista concedida a este colunista na época do lançamento de História do cabelo, Pauls afirmou que gosta de pensar a frase em seus livros como um mundo, um ambiente, um lugar para onde o leitor é tragado e onde permanece, imerso naquele fluxo cuidadoso de palavras que parecem se expandir ao seu redor. É uma bela imagem.
10 – Em História do cabelo, o protagonista sem nome é um homem que passa boa parte de sua vida angustiado com um problema inconfessável: nunca consegue cortar o cabelo de um modo que o satisfaça. Diferentemente de História do pranto, no qual espia pelas frinchas o peso sinistro da repressão ditatorial, e de História do dinheiro, com sua sátira quase pornográfica à ganância capitalista e à miséria que segue em seu rastro, História do cabelo tem nessa premissa uma inevitável comicidade, ampliada pela forma séria e dramática como o problema é analisado. Certo dia, em um impulso, o protagonista entra em um salão e corta seu cabelo com um sujeito intenso e de uma tosquice superficial assustadora, mas que faz, ao contrário das expectativas iniciais, o corte perfeito. O caimento é ótimo desde o primeiro dia, evitando aquela primeira fase constrangedora de “assentamento” que leva até um corte parecer realmente bom. Tendo encontrado o que considera o corte perfeito, o protagonista volta ao salão certo dia apenas para descobrir que o intratável homem que o havia atendido foi demitido após uma briga com a direção. Então, parte do romance é o protagonista tentando encontrar outra vez aquele que parece ser o único profissional em toda a cidade a fazer com que o corte no mundo real corresponda àquilo que o cliente havia imaginado ao sentar-se na cadeira. Há um certo elemento satírico também no romance, que reveste de alguns contornos dramáticos pensamentos e uma subjetividade que não costumavam ser expressos – tradicionalmente, nunca foi considerado muito “masculino”, no sentido daquela masculinidade performativa.
11 – Como eu disse, os trabalhos acadêmicos mais recentes que encontrei sobre barbearia se debruçam sobre os estabelecimentos “raiz” como um elo com um passado em vias de desaparecer. Acho que não procurei direito, mas fora do campo da administração, onde o foco não é necessariamente crítico, e mais pragmático, não encontrei muito sobre o atual fenômeno das franquias “topzera Nutella”. Aliás, não acho que a maioria das pessoas que fazem essa distinção em postagens na internet esteja se referindo ao que eu entendo como grande diferença entre ambas. O que me parece estar em jogo não é o fato de que as barbearias modernas metidas a “barber shop” americanas ou a convenção de cosplayers de Peak Blinders ou Sons of Anarchy queiram resgatar signos de uma masculinidade mais performática do que real. As barbearias sempre, a seu modo, ocuparam esse espaço. Só que os estabelecimentos do novo modelo parecem mais artificiais e pouco “autênticos” porque buscam seus códigos num imaginário estrangeiro, calcado mais em ficções do que em vida real, e imitando apenas os mais superficiais maneirismos. Postes coloridos girando na calçada, chapéus de feltro pendurados na parede ou nas luminárias, flâmulas e bandeiras da Harley Davidson, às vezes um que outro elemento das próprias motos, como rodas ou guidons, espalhadas como decoração. E com o detalhe de que, quando você entra em um estabelecimento assim, o que está tocando? Iron Horse, do Motörhead? Born to be wild, do Steppenwolf? Red Right Hand, do Nick Cave? Free Bird, do Lynyrd Skynyrd? Não. Provavelmente algum DVD gravado ao vivo de Daniel, Gusttavo Lima ou Eduardo Costa. É isso o que trai o esforço maior e mais constrangedor posto na encenação, transformando toda aquela iconografia que remete a elementos marginais da cultura americana ou europeia, como gângsters, mafiosos ou motoqueiros, em um cenário domesticado para uma fantasia do velho e acolhedor ambiente de uma barbearia “real”. As barbearias “raiz” sempre concentraram o reforço de uma sociabilidade masculina no teatro do cotidiano. Essas novas aí transformaram o conceito em “parque temático pra macho”.
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Foto da Capa: Oriol Pascual / Unsplash

