Essa semana participo de uma mesa redonda em um evento onde a proposta é refletir sobre a arte (especificamente a escrita) e sua relação com um mecanismo de defesa psíquico chamado sublimação, que é justamente aquele através do qual forças pulsionais anárquicas e potencialmente angustiantes podem ganhar um novo destino e tornarem-se outra coisa.
A elaboração da minha fala foi também angustiante, embora compilar anos de estudos e artigos lidos em uma fala autoral e que se considere satisfatória também seja em si uma atividade sublimatória. A poesia é uma das minhas vias principais de sublimação, meu escape ou minha via livre de expressão. Não é fácil assumir-se poeta, assim como não o é entender-se psicanalista, porque nenhum desses fazeres atribui um diploma ou formatura no final, até porque nem existe esse tal final (ainda bem). Não confio em quem nunca sentiu certo estranhamento ou, no mínimo, um questionamento inicial ao intitular-se psicanalista, artista ou poeta. Esse lugar é uma construção diária e que custa – ao mesmo tempo que promove – muita saúde emocional.
Estamos com poucas saídas sublimatórias ultimamente. Arte, música e outras formas de expressão parecem não estar dando conta de tanta realidade que nos assombra. Tanto desamparo. Penso em como é possível formadores de opinião, educadores e artistas usarem seus conhecimentos para viabilizar um acesso mais direto, estimulante e estimulado para todas as formas de expressão artística receberem a atenção que merecem.
Nesse momento, Porto Alegre recebe a Bienal do Mercosul e é preciso pensar na importância de um evento dessa magnitude em nossa cidade e o quanto e de que maneira a população é estimulada a visitar os pontos de exposição e deixar-se tocar pela arte apresentada. Difícil, tanto na vida emocional como na vida urbana, sensibilizar-se ao estético quando se tem demandas mais urgentes que pecam em ser satisfeitas. Porto Alegre fala em arte, usa o tema das enchentes ocorridas no último ano como pano de fundo em muitas de suas justificativas e divulgações, mas segue, em muitos nichos e bolhas, com um olhar elitista e bitolado a respeito do evento numa cidade ainda tão castigada e tão sequelada pelos efeitos das enchentes. Muitos dos organizadores não sentiram essas perdas e nomeiam exposições fazendo alusão à força de um povo que, ele mesmo, em grande parte, não consegue se aproximar ou chegar perto dessas instalações artísticas. Sublima-se o quê quando se perde a casa por incompetência governamental no gerenciamento do sistema hídrico e de esgotos da cidade? E então vê-se esse mesmo governo falando de um povo aguerrido quando essa força e resiliência são muito mais por abandono e falta de possibilidade do que por escolha. Aplaude-se o quê quando bairros seguem alagando em chuvas bem menores do que as vividas em Maio de 2024 sem enxergar-se nenhuma ação mais efetiva e contundente no sentido de prevenção ativa para que novas catástrofes urbanas não venham a ocorrer fruto de nosso caos climático?
Sinceramente, minhas produções reflexivas e teóricas vêm sendo assoladas e – ainda bem – perturbadas por uma demanda de dar voz a necessidades primordiais que tenho plena noção do quanto delas eu até desconheço, vindas de grande parte da população que nem se sente enxergada. Eu quero ir à Bienal, agradeço a possibilidade e a oportunidade de a arte estar ocupando nossa cidade, mas me perturba perceber como esta acaba sucumbindo a fachadas de preocupações sociais que na verdade não passam de discurso e que acabam segregando e excluindo quem, antes da diversão e arte, contrariando os Titãs, quer “só” comida e um lugar seguro e seco para viver.
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Foto da Capa: 7ª Bienal (bienaldomercosul.art.br)