Começou com um singelo bom dia. Bem… Não era tão singelo assim. Letras garrafais, coloridas, e tinha a imagem de um dia amanhecendo em algum cais. Bem… As letras não eram assim tão garrafais como se tornariam mais adiante, quando não retribuí o bom dia, mas isso não é para agora.
Para agora, respondi bom dia. Bom dia. Digitei com letras normais, sem imagens, não de propósito, mas por não ser nenhum ás no manejo do Smart, a ponto de saber aumentar letras ou acrescentar imagens candentes. Mas foi um bom dia digno e sincero para aquele velho conhecido, a quem não via há muito tempo e de quem sabia não estar tão velho, embora fosse sozinho.
Agora era assim. Bom dia – ele estampava, logo cedo. Bom dia, eu respondia, pouco depois. Depois já não era pouco depois, porque havia outros velhos conhecidos e novos desconhecidos solitários que também precisavam de bons-dias. Bom dia, bom dia, bom dia, bom dia. Bom dia.
Então, percebi que estava me atrasando para o primeiro compromisso da manhã e a tendinite do polegar na mão esquerda aumentou um bocado. O Doutor Márcio já havia me ameaçado com uma cirurgia definitiva, em caso de mais uma falha clínica. Quer perder o movimento do dedo para sempre?
Não, eu não queria, mas às vezes sentia que nada poderia ser mais importante do que retribuir o bom-dia para um sujeito carente e solitário. Por outro lado, precisava defender tempo e dedo e tentei ser forte. Eu tinha de, encarecidamente, evitar o bom-dia. Que os dias pudessem ser bons por eles mesmos. Se por acaso nos encontrarmos, a gente dá o bom dia, diretamente. Lembrei que, na França, passava a manhã trabalhando no hospital e era Bonjour pra lá e Bonjour pra cá até que o expediente terminasse. Mas era direto, inevitável, bastava um pequeno esforço da corda vocal (nem precisava olhar), e nada se pedia ao dedo ou ao tempo, pois era perfeitamente possível dar o Bonjour já fazendo uma outra coisa.
Silêncio. Silêncio, embora a tela gritasse no canto do meu olho e no meio do ouvido. Aqui retomamos aquela história das letras cada vez mais garrafais, o que incluía imagens cada vez mais incríveis, como um amanhecer rosado no Himalaia ou aquele roxo, em Katmandu. Eu olhava para a tela, mas logo o dedo meio inchado olhava para mim e o tempo nem precisava me olhar. Acabou o bom-dia.
Não durou muito, porque aquilo ficou mais insuportável do que a dor no dedo. Desde ontem, voltei a retribuir o bom-dia do meu conhecido solitário e os de outros. Mas não foram as letras garrafais nem as imagens de um dia crônico na aurora boreal. Foi algo dentro de mim assegurando que eu também precisava daquele bom-dia e duvido que o Doutor Márcio conheça alguma cirurgia que remova a carência tão robusta de uma noite que espalha seus destroços quando a manhã desponta em Porto Alegre.
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