Original publicado em 11/09/2025
Quando Heloísa era menina, não sabia diferenciar segredos de fofocas e de mentiras. Como lhe faltava experiência, não alcançava a malignidade de ambos e menos ainda entendia por que as pessoas fazem ou inventam coisas desonrosas ou graves sobre as outras.
Por exemplo: uma ex-namorada de um de seus melhores amigos, que não chegou a viver um ano corrido na casa dele, e o explorava financeiramente, assediava outros homens, mesmo casados ou dentro de um relacionamento, inventando que ele a traía e que a obrigava a orgias sexuais.
Heloísa sabia que não era verdade. A moça agia assim porque sabia que ele estava acordando do transe em que caíra e iria deixá-la. Ele já verbalizara algumas vezes o quanto ela não era bacana.
Queria muito o amigo de Heloísa que a moça fosse embora porque percebera a sua futilidade, a sua falta de caráter e o seu rancor por ter levado uma infância e adolescência diferentes da dele em que não houvera privações econômicas.
A tal, na época, dizia que o amava, é claro, mas ele sentia que algo estava errado, mesmo sem ainda saber dos encontros que ela marcava com outros homens e das conversas pelo celular que ela entabulava. Como a gente sabe, é difícil para um ser humano, ainda mais se for uma pessoa generosa, aceitar que não passa de uma mera galinha dos ovos de ouro.
O amigo de Heloísa colocara muitos em favor da criatura. A faculdade que ela não conseguia pagar, ele pagou duas vezes para que ela pudesse concluir o curso. Na primeira vez em que ela pediu ajuda, dizendo que um dia devolveria tudo, o dinheiro foi desviado sabe-se lá para onde. Na segunda, ou pagava ou não se formava, e ele, então, enternecido pelo desespero e lágrimas, quitou o débito.
Uma artista, de certa forma, a moça era. Alguns homens, mesmo vividos, acreditavam em suas histórias e nas difamações que ela fazia sobre o amigo de Heloísa, um homem bem-sucedido, charmoso e bonito. Os homens não costumam falar sobre as aparências uns dos outros, mas a verdade é que se roem de raiva quando há um macho mais tudo que eles.
Isso quem disse à Heloísa foi um outro amigo seu que, entre vários, saíra com a jovem. De ‘ligeira’, ele a chamara, dizendo que ela prospectara todos os 50 + da cidade em busca de proteção econômica luxuosa, inclusive o homem com quem Heloísa mantinha um relacionamento e que, assim como ele, havia sido descartado por não ser o suficientemente rico.
Esse amigo de Heloísa sentia vergonha por ter sido um pouco enrolado, mas se mostrava aliviado por ter se dado conta do que acontecia. Além de inteligente e sem vontade alguma de se jogar em um abismo paradoxalmente raso, ele, numa reunião inesperada, trocara informações com outro que a tal moça também tentara seduzir. Outro que, como ele, conseguira escapar sem prejuízos materiais ou emocionais.
Dois, entretanto, se deixaram levar. Um, livre, leve e solto, a levou para morar em sua casa, um arrependido do tipo que, se arrependimento matasse, não estaria mais entre nós, coisa que aconteceu, porque, ele, em poucos meses, morreu. E outro, que segue vivo, fez o mesmo, mas dentro de uma espécie de segredo, porque era casado e vivia sozinho em função da pandemia. Sua esposa ficará presa em uma cidade do Nordeste durante uma visita à filha.
Não existem, como crimes, segredos perfeitos. Cedo ou tarde, quando menos se espera, eles acabam por ser quebrados e chegam justo nos ouvidos de quem seus donos não gostariam. Movimentos do universo ou providência divina, não importa, acabam por revelá-los. Esse segundo, apesar de toda a sua expertise, anos mais tarde, teve o seu segredo revelado justo para a enteada que acabou por se envolver, adivinhem por quem? O superamigo de Heloísa.
Nunca, o segundo pensara que a aventura com a ex do amigo de Heloísa pudesse chegar tão longe. Na época em que ele se envolveu com a moça interesseira, ele estava assustado com as notícias sobre o terrível vírus e ressentido por sua mulher, tão admirada e querida por muita gente, não estar ao seu lado. E ele, sabe-se o porquê, talvez despeito, em uma trama folhetinesca, cederá aos apelos da jovem pseudoviúva para mudar-se temporariamente para a sua casa.
Pesado, não?
O casal se separou. O homem, a filha e o genro, o superamigo de Heloísa, sabendo da verdade. A esposa enganada jamais soube do que acontecera durante os meses pandêmicos em que esteve fora. Até hoje, não faz ideia de que a jovem, a quem ela também conhecia, pudesse ser tão desprezível.
O superamigo de Heloísa, outro dia, disse a ela: ‘Olha só quem, depois de tudo o que aprontou, ainda segue as redes sociais da minha sogra, que ela fazia questão de sacanear’. A interesseira era uma moça invejosa e má. Ela mesma, em carne, osso e perversão, contou a ele os detalhes do sexo que fizera com os outros homens.
Com que fim?
Para tirá-lo do sério, forçá-lo a uma agressão física que ela pudesse usar a seu favor no processo de separação em que ela acabou conseguindo fazê-lo pagar pensão por um ano e ainda levou um razoável valor em dinheiro. A interesseira bonitinha, mas ordinária continua sendo quem sempre foi, mas caiu um pouco na real ou foi caída. Como diriam as fofoqueiras, encalhou, e teve de ir trabalhar, ainda que siga fazendo caras e bocas em sua vazia rede social.
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Foto da Capa: Freepik

