Quem me lê já sabe: defendo, sem hesitação, que as grandes capitais brasileiras tenham institutos de planejamento urbano — e Porto Alegre, quinta maior região metropolitana do país e sétima economia dentre as capitais, não pode ficar de fora. Quanto mais estudo, mais percebo que a interdisciplinaridade dos temas urbanos é a engrenagem de um futuro sustentável — social, ambiental e economicamente. Não investir nisso terá um grande custo no futuro.
Ações e projetos piloto conduzidos nas cidades têm um enorme poder educativo. Eles nos ajudam a imaginar futuros possíveis, a operar mudanças, a acompanhar resultados e a produzir dados. Para isso, no entanto, precisamos de estrutura técnica multidisciplinar, continuidade e inteligência institucional.
Mas antes ainda, precisamos acreditar que é possível!
Quero então propor um exercício: virar a forma como costumamos olhar nossos desafios, especialmente quando pensamos no trio social–ambiental–econômico.
Começo pelas questões sociais. À primeira vista, parecem gigantescas — afinal, as imagens que dominam o noticiário vêm quase sempre dos mesmos lugares: Complexo do Alemão, Rocinha, Paraisópolis. Mas dos 12.348 assentamentos urbanos existentes no país, mais de 80% têm menos de 500 domicílios. Muito menores e menos complexos de transformar. Um cenário muito diferente do construído no imaginário coletivo, que, de tão grande, faz parecer que a solução é inalcançável — e, por isso, nos imobiliza.
Olhando os dados, cerca de 16,4 milhões de brasileiros vivem em favelas: 8% da população. Um número que cresce (eram 6% em 2010), mas que, seguramente, é menor do que a maioria das pessoas imagina. Ainda, estão presentes em 656 cidades, dos 5.568 municípios brasileiros. A proporção por estado varia enormemente: vai de 34,7% da população do Amazonas a 0,74% no Mato Grosso do Sul. Estados com baixos níveis de favelização, como o Rio Grande do Sul (3,8%), deveriam investir em formas de promover o desenvolvimento destas regiões, servindo de exemplo dentro do país.
Segundo dados do Data Favela, essas regiões autoconstruídas, somadas, demonstram vigor econômico, movimentam R$ 120 bilhões por ano — uma economia maior do que 20 estados brasileiros. Quanta potência cabe em 8%!
Falando em potência, o Brasil é um país em que “meio ambiente” é quase um eufemismo: aqui o ambiente é inteiro. O território brasileiro abriga 60% da Floresta Amazônica, o equivalente a um terço das florestas tropicais do mundo. Esse bioma regula o clima global, armazena carbono, mantém ciclos de água e chuva e concentra a maior biodiversidade do planeta. É, literalmente, o coração ecológico da Terra. O valor é imensurável, pois define nossa sobrevivência ou não, enquanto espécie, no planeta Terra.
Somos também potência em água: com uma área que corresponde a 1,6% da superfície terrestre, temos 12% de toda a água doce do planeta. E ainda, mérito dos nossos antecessores, contamos com uma matriz elétrica em que 88,2% da energia gerada vêm de fontes renováveis. Se quiser aumentar a autoestima territorial e compreender melhor nosso potencial ecológico, recomendo o livro Brasil, Paraíso Restaurável, finalista do prêmio Jabuti.
Minha ansiedade, confesso, reside na velocidade das políticas públicas e das legislações serem capazes de transformar esse patrimônio natural em valor estratégico — e não apenas retórico. Sonho que tenhamos ferramentas — e consciência — para compreender que desenvolver não é expandir a mancha urbana, nem explorar riquezas territoriais diretas, mas aproveitar melhor o que já existe, preservando nossas riquezas naturais.
E é aqui que volto ao início: cidades não avançam apenas com um Plano Diretor. Elas precisam de um ecossistema de planos — de mobilidade, habitação, drenagem, resíduos sólidos, arborização, mitigação, adaptação climática — conectados entre si, dialogando, se completando. Só assim se resolvem problemas urbanos de verdade. E, no caso de Porto Alegre, após a enchente, espero que tenhamos aprendido que é necessário articular os distintos planos dos municípios com uma gestão por região hidrográfica e zona bioclimática.
Faltou falar de economia? Não faltou, ela já estava lá — inseparável do social e do ambiental. A economia é como nossa sombra: sempre presente, mas ainda mais onipresente, pois também está, mesmo quando a luz apaga. E é por isso que recomendo outro livro, Economia Donut, de Kate Raworth, que nos provoca a abandonar a ideia de crescimento infinito em um planeta finito.
E se, em vez da flecha que sempre aponta para cima, buscássemos uma economia do equilíbrio? Que compreendesse que todos devem ter acesso a uma base social mínima, que garanta habitação, alimentação, saúde, educação e, ao mesmo tempo, que não ultrapasse os limites ecológicos planetários.
Quando uma criança nasce, esperamos que engatinhe, ande, corra — mas jamais que voe. Há limites biológicos. Por que não aceitar que a Terra também tem limites? Ultrapassá-los é tão perigoso quanto um ser humano tentar voar. Só sobreviveremos se construirmos uma economia que garanta o suficiente para todos sem infringir o que o planeta consegue suportar.
Foi um alento ler e perceber este discurso defendido, demonstrado e estruturado por uma economista. Compreender o conceito de economia com foco na prosperidade humana e no equilíbrio ecológico, não na ideia de crescimento infinito, consumo desenfreado e ganância individualizada. Apresenta, por exemplo, a defesa do reconhecimento do trabalho do cuidado, citando políticas de apoio a creches, licença parental e saúde coletiva. Também a importância de economias distributivas, como energia solar comunitária, plataformas de cooperativas em que os trabalhadores são os donos e definem regras. Ainda, mudar a lógica e investir em produtos feitos para durar, para serem reparados e reciclados, reduzindo impactos ambientais. Investir em agricultura regenerativa, que aumenta o carbono do solo e reduz agrotóxicos.
No Brasil já existem alternativas construídas, como o pagamento por serviços ambientais (PSA) – incentivando agricultores a proteger florestas e rios. Projetos de reflorestamento, de reutilização de resíduos para construção civil, de bioeconomia, para citar alguns. Mas há muito mais por fazer e muitos mais brasileiros para engajar e preparar.
Essa, sim, é a inovação que o futuro exige.
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Foto da Capa: Freepik

