Diante de todas as tentativas atuais de declarar a ineficiência da escola e sua desatenção ao mundo “real” dos estudantes (escola conteudística, hierárquica, verbal, abstrata, analógica…), e de tentarem modificar as expectativas deles – estudantes – em relação à instituição escolar, o que esconde, na verdade, um outro projeto de individualização manipulada, gostaria, nesse artigo, de oferecer uma visão um pouco diferente daquilo que eu acho que seja um “estudante”. Não se trata, apenas, de louvar aquela personagem que AINDA está estudando (no fundo, permanecemos todos, por toda a vida, “estudantes”, cuja origem latina significa “ser diligente” ou “dedicar-se”), mas de tentar elaborar uma carta etnográfica da personagem.
O(a) estudante é alguém que todos os dias veste uma roupa especial (uniforme, por exemplo), que o identifica e o distingue no ambiente público, e também define o lugar para onde ele vai: uma determinada escola, anunciada no próprio fardamento. Ali, naquela semiótica do fardamento, também se define uma posição social e, através dela, podemos fazer a leitura do destino social e individual de quem a usa: fardamento de escola pública = futuro de trabalhos subalternos; fardamento de escola privada = futuro de trabalho intelectual e de mando! Eis a semiótica da “distinção” presente no “uniforme”, que, na origem do republicanismo escolar (Saint Fargeau), tinha exatamente a função contrária: impedir a distinção social do aluno pela sua aparência vestimentária. A escola era o lugar da “igualdade” (de oportunidades)! Hoje, o sucesso ou a invisibilidade já estão inscritos na roupa escolar que se usa…
Todos os dias o(a) estudante se dirige a um lugar um pouco estranho: a ESCOLA (do grego “lugar de repouso da alma”). O que acontece ali?
Ali, na escola, acontece um inusitado – e quase imperceptível – encontro entre aquelas duas “categorias a priori” do kantismo: o TEMPO e o ESPAÇO. Gostando ou não, os estudantes serão obrigados a se debruçarem sobre o PASSADO de não importa qual matéria e ficam sempre à espera de que uma PROMESSA (futuro) se cumpra, quando o(a) estudante será aquilo que pretende ser, deseja ser, que impuseram a ele ser, que escolhe ser… Se essa promessa se realizará ou não, isso é outra história, que envolve, como acabei de dizer, destinos sociais de classe que o nosso falso “igualitarismo” republicano esconde. Há aqueles para quem a PROMESSA pedagógica e escolar nunca se cumprirá, como também jamais alimentarão o sonho de cumpri-la: o SONHO, meus leitores, depende da classe social à qual se pertence! UMA VERDADEIRA POLÍTICA ESCOLAR REPUBLICANA É AQUELA QUE FAZ COM QUE O SONHO NÃO SEJA UMA EXCLUSIVIDADE DE CLASSE! A louvável política de cotas é essa tentativa de fazer com que republicanismo escolar e sonho possam coincidir.
Esses dois tempos, o da LEMBRANÇA e o da PROMESSA (não ouso falar aqui de ESPERANÇA, que é Virtude Teologal e não fundamento pedagógico), se encontram naquele estranho ESPAÇO. Espaço separado da vida ordinária e cotidiana, em que estudantes encontram pessoas estranhas, adultos e colegas, que não são nem seus pais nem seus irmãos, isso num espaço restrito, fechado e exclusivo chamado SALA DE AULA (curiosamente, AULA vem do latim, “Aula/ae” e significa… pátio!). Ali, nós deixamos de ser “filhos”, ou simplesmente “crianças”, para virarmos “ALUNOS” (que não significa “aquele que não tem luz”, como ouço com frequência!), e se produz uma interpelação subjetiva: eu, aluno ou estudante, serei solicitado – ou obrigado – a participar de uma comunidade abstrata, diferente da palpável “família”: serei convidado a entrar no MUNDO, que não é um conceito geográfico, mas um conjunto de experiências intersubjetivas, compartilhadas e confrontadas com OUTROS e, para isso, eu sou instado a entrar inicialmente numa relação específica, que não escolhi, a RELAÇÃO PEDAGÓGICA (aquela mesma que me transita de “filho” para “aluno”, e como tal devo agir, quer dizer, exercendo um papel que esperam de mim: eis o sentido da “disciplina”!), relação, retomo, em que alguém me guiará em direção a uma promessa que nunca saberei se vai se realizar. Aliás, o “guia” também não!
Todo estudante tem o direito de se perguntar, não exatamente “o que fizeram de mim?”, “o que esperam de mim?”, mas, sim, “o que farei daquilo que fizeram de mim?”. Até onde posso assumir as rédeas de minha vida, de meu projeto, até onde posso ser EU MESMO, num mundo de “influencers”, virtualidades, egos postiços, consumo de si, efemeridades…, numa temporalidade do “AGORA”, frágil e evanescente.
Ser ESTUDANTE parece que se transformou num embate subjetivo e social agonístico e trágico: já não se pode ter a certeza de que o PROJETO (“lançar-se para frente”) poderá ir além do SUJEITO (“ainda por se lançar”) que sempre serei, em que poderia realizar aquilo que ainda não sou… No “AGORISMO” de nossa condição existencial, o “ainda não”, que permite a LIBERDADE, parece estar cedendo lugar às exigências do “inteiramente outro” (mercado, redes sociais, empreendedorismo, aparência, consumo).
Lamento, meus caros ESTUDANTES, ter de propor uma etnografia tão pessimista. Mas, como educador, tenho a obrigação de dizer claramente o que está acontecendo com aqueles que me são confiados e que pretendo… educar! E gostaria que vocês também soubessem o que estou fazendo de vocês.
Mas, no fundo, permaneço um otimista: tenho certeza de que vocês serão capazes de deixar algo no Mundo que não existia na minha época, nem antes de mim e, assim, renovar um espaço e um tempo que não verei mais. Que vocês realizem o MILAGRE do NOVO!
Boa sorte!
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