1 – Há sebos. E há os sebos de Buenos Aires.
2 – Talvez seja o influxo de Borges.
3 – Ou do começo de O nome da rosa.
4 – Encontro, e digo encontro por não ter uma palavra para “encontro o que não sabia buscar, ou não esperava encontrar”, uma preciosa edição das Confissões, de San Agustín, com capa de couro, papel bíblia, e um formato reduzido que ultrapassa um pouco a medida de um punho. É das famosas edições Aguilar, com seu capricho de fita para marcar a página, ilustrações e ornamentos há muito perdidos.
5 – É um mundo feio, o nosso. Plástico, alumínio e poliuretano.
6 – Trocamos uma relativa eternidade — o livro parece jovem para seus setenta e cinco anos — pelo conceito escandaloso e ordinário da obsolescência programada.
7 – Que só reflete o modo como vemos nossa própria obsolescência, como dizia Günther Anders.
8 – Amo os sebos porque são um templo contra o descartável.
9 – Mesmo os mais efêmeros best-sellers ainda tem a chance de uma redenção na caixa de saldos.
10 – E o milagre de Agostinho, perdido entre tantas obras completas, daquelas que se gostaria de levar todas, mas cujo preço é de partida um impeditivo.
11 – Durante muitos anos, as Confissões, na edição da Paulus, estiveram em minha cabeceira.
12 – O começo do livro, talvez religioso demais para certo nervosismo material de nosso tempo, pode afastar os menos pacientes. Mas o que avança pelas páginas da obra é um dos maiores monumentos ao valor da vida interior, dos questionamentos fundamentais, da passagem do tempo — especialmente da passagem do tempo.
13 – Já sentado a um café na esquina da Charcas com a Coronel Díaz, peço o combo sem o qual não se é portenho: dos medialunas y un café con leche. A água com gás te incluem, como uns biscoitinhos meio fuleiros, mas nos tempos do Leão qualquer cortesia é bem-vinda.
14 – Uma vez escrevi um poema para Santo Agostinho. Para os delírios de sua juventude, a que ele sempre parece retornar, num misto de culpa e delícia.
15 – Com ele aprendi a confessar num texto.
16 – A primeira pessoa não deve ser uma oportunidade de autolouvação ou autoindulgência. A primeira pessoa está ali para uma funda autodesconstrução e autoinvestigação. E que se isso for bem feito, será um convite para que os leitores façam o mesmo.
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