1 – Entre as poucas imagens misteriosas, sombrias que nos restam num mundo bem mais iluminado do que devia, estão os corredores de muitas portas.
2 – Como os da Galeria do Rosário.
3 – Lá íamos atrás dos jogos piratas para MSX, quase computadores que ocuparam um espaço entre os ataris e a chegada dos consoles da Sega e da Nintendo.
4 – Corredores sempre escuros. Por vezes, estava uma porta entreaberta, de negócios impossíveis de compreender.
5 – Ao menos aos treze anos.
6 – Ficou-me o contraste entre o furdunço do térreo — com suas fritadeiras eternas de pastel, lojas de relógio, armas variadas, quinquilharias de ocasião — e os espaços angustos em que os elevadores nos despejavam, temperados no inverno e no verão pela umidade direta do rio, algumas quadras abaixo.
7 – Uma das lojas exigia uma contrassenha para entrar, que somente antigos fregueses poderiam ter passado. Anos depois, aqui em Buenos Aires, num Speak Low da moda, queriam aplicar a mesma artimanha — com um passe divulgado no Instagram.
8 – Depois era voltar para casa e testar as k7s no pequeno toca-fitas que se conectava ao computador, com o azimute alterado. Ocorria de não estarem bem-gravadas.
9 – O que implicava voltar ao centro, às imediações da Galeria, onde a vida parecia promissora e complexa, viva e ameaçadora.
10 – Tenho a impressão que no mundo corporativo, que agora é também o mundo das vivendas, os corredores precisam ser cada vez mais iluminados, os números nas portas, cada vez maiores.
11 – A estética da segurança é também a estética da vigilância.
12 – A ver se não é mais feio o medo claro.
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Foto da Capa: Galeria do Rosário / Reprodução do Youtube