1 – Nas oficinas de escrita, defendo a estratégia do polvo.
2 – Pratico a estratégia do polvo.
3 – O texto é como a cabeça do polvo, os tentáculos a disponibilidade de trazer para dentro do campo da escrita os assuntos que estão à sua volta.
4 – O texto unitentacular deixa passar ao largo tantos fenômenos irrevogáveis, como a dor do pescoço mal dormido, a memória úmida de certos lábios, a cabriola da gata que quase põe a perder o computador.
5 – E em nome —
6 – Da ordem do dia, da crise da semana, da coerência de uma opinião que mal termina de se escrever e já começa a caducar?
7 – No livro aqui ao lado está Blanca Varela:
O tempo,
a grande porta entreaberta,
o astro que cega.
8 – Na construção que os vidros da janela não abafam, o putear do obrero a quem le chupa un huevo qualquer coisa.
9 – E coisas menores, como a semente de chia presa nos dentes. E um quase-ensaio, que um tentáculo abandona, sobre o milagre dos grãos que a indústria dos biscoitos nos oferta com gergelins, girassóis e linhaças.
10 – Confiar que a cabeça do polvo mantém, por rigor formal, a coerência do texto, pois que não é mais que a reprodução de um momento em que nossa mente se encontra disponível para abarcar o mundo e se deixar abarcar por ele.
11 – Trata-se de um devaneio controlado, de uma ordem que aparece depois — não antes da escrita.
12 – Vivemos em um mundo de devaneios reprimidos. Não viaja, reprimenda que trazemos do colégio. Enquanto viajamos nossa consciência se expande e perde foco. Que seja.
13 – O texto é o lugar em que algum foco se encontra.
14 – Por sua própria natureza linear e horizontal. Haverá ordem nas frases, na aparição do que puxa cada tentáculo.
15 – A coerência é alguma coisa que regalamos a quem lê.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

