1 – Segundo Mateus (ou quem quer que tenha escrito seu Evangelho), os magos do oriente chegam a Jerusalém guiados por uma estrela. Vêm adorar o menino que nasceu e pedem a Herodes sua localização. Belém, diz o déspota, depois de consultar seus sábios, que citam um trecho bíblico. Em segredo, Herodes pede aos magos que o informem quando encontrarem o bebê, para que ele também possa ir adorá-lo. É quando a estrela volta a aparecer, para que eles terminem sua missão de ouro, incenso e mirra, que é anunciar ao mundo o nascimento de um novo rei e logo se prostram diante de Maria e de Jesus. Mais tarde, em sonhos, recebem o aviso de não retornar a Herodes e voltam para casa por um outro caminho.
2 – Isto é tudo o que sabemos dos magos no único Evangelho canônico que os menciona.
3 – Há que supô-los três pelos três presentes. Ali não estão seus nomes, suas procedências para além de um vago e imenso oriente, o significado explícito de seus presentes, como podem sonhar os três, se são três, ao mesmo tempo com Herodes, e que tipo de estrela, feito anjo talvez, é esta que os guia quando precisamos todos, ainda hoje, milênios depois, de um GPS?
4 – São os magos epifânicos: chegam para anunciar o maior dos mistérios, para brindar uma rachadura ao círculo perfeito.
5 – Reconhecer e depois desaparecer.
6 – O momento de sentir o sentido, o lugar dos leitores. E depois de outras obras mais claras, mais explicativas.
7 – São os livros apócrifos e as tradições variadas do mundo antigo que assentam que eram três, tinham nomes (bonitos nomes), eram astrólogos orientais, reis, vinham anunciar a novidade do Jesus menino para o mundo todo, e não apenas para os judeus. O ouro a simbolizar o monárquico; o incenso, o espiritual; a mirra, os sofrimentos do corpo (era usada nos embalsamamentos).
8 – Tanta explicação. Esclarecimentos do mistério, que os leitores (e depois outros escritores) podem explorar. Somos textos de textos. Mas a cada texto menos magos, menos o gênio elíptico de Mateus.
9 – Os magos epifânicos. Uma vez de volta às suas terras, deixaram entre nós os seus contrários.
10 – Três antimagos, à caça de toda e qualquer epifania.
11 – Assim que sentamos para escrever, eles nos aguardam na soleira da porta, ou fora do alcance da vista nas vitrines de algum café.
12 – Não digo que estejam à espreita. Sabem que entrarão em cena. É que gostam de se vestir com o óbvio.
13 – Inimigos do mistério, suas vozes logo são as nossas. Eles são a estrela, são os presentes, a candura e o sofrimento de Maria, são a análise do sonho com Herodes.
14 – Não revelam. Explicam. Os magos sem magia.
15 – O mago explicador entra em cena quando supomos que os leitores não podem entender alguma coisa no conteúdo da narrativa, do poema, pelo que supomos serem seus parcos recursos cognitivos. É a menina que chega para trabalhar em uma mega revista, em um luxuoso prédio nova-iorquino, cuja chefe é temida e respeitada, e ainda é preciso que um personagem lhe diga que muitas meninas matariam para estar neste emprego.
16 – O mago piedoso supõe que é preciso pedir mais emoção dos leitores, que cabe a ele (ou a mim) instruir sobre como devem sentir. Costuma se manifestar, por estratégia textual, nos adjetivos. “Então ele, sobrecarregado, olhou para os filhos que não podia alimentar.” Já seria um excessivo o trecho sem o adjetivo, mas por que não garantir a lágrima — esse conforto salino?
17 – O mago metalinguístico aparece na metalinguagem não como recurso, riqueza de todo texto, mas para garantir que o jogo de autorreferência tenha sido entendido por quem lê. Tem por hábito manifestar-se depois de uma já precária exploração da natureza de toda escrita. Em poemas como este, criado para o exemplo:
o poema mapa
paema o ma
do mapa
poesia
neste jogo
de palavras
o poema se cria
Mas quem não havia percebido se tratar de um jogo de palavras?
18 – Os anti-magos. Contrários a toda e qualquer epifania, pesados de trivialidades. Viajar com eles é a alegria das companhias aéreas.
19 – Estão conosco a cada vez que desconfiamos da capacidade dos leitores. Dão-nos apenas o papel de Herodes.
19 – O leitor é desatento, vamos guiá-lo por meio de explicações. O leitor é embotado, é hora de ensiná-lo a sentir. O leitor desconhece os jogos textuais, eis o ensejo para palestrar sobre a intertextualidade.
20 – Em vez de ouro, uma IA, que já estava presente nas explicações antes mesmo dela existir.
21 – Em vez de incenso, um violino americano para fazer chorar sempre que for preciso.
22 – Em vez de mirra, um infográfico, para que os processos estejam em devidos balões e ligados por setas que todas possam entender.
23 – Mas e se houver para os leitores uma estrela que não vemos, e se acreditássemos que os recursos do texto já guardam em si os verdadeiros magos da anunciação?
24 – Parece que a única maneira de purgar esses antimagos, além de contê-los enquanto escrevemos, é expô-los ao escárnio, como fizeram os mestres do ofício.
25 – Em A hora da estrela, Clarice converte em ironia (e desespero) as explicações sobre Macabea, os excessos sentimentais que o drama da moça possa incitar, as tentativas de Rodrigo S. M. de esclarecer seu processo de escrita.
26 – O mesmo vale para Memórias Póstumas de Brás Cubas. Um deboche continuado aos excessos racionalizantes do Realismo (a era dos magos explicadores), aos arroubos do Romantismo (o paraíso dos piedosos), à suposta genialidade de explicitar os jogos formais e se gabar disso (o destino metalinguístico de nossa escrita).
27 – Vale também para a vida. Esses antimagos estão no coração de muitos momentos deploráveis que impomos aos outros ou que se nos impõem: a insistência de alguém em nos explicar o que já entendemos, o compromisso de uma empatia que não nos toca, arrazoados sobre como as coisas funcionam, sendo que as conhecemos.
28 – Olho.
29 – A onipresença dos avessos de Melchior, Gaspar e Baltazar é sua camuflagem.
30 – E também sua preguiça. Ou nossa.
31 – Estão em toda parte. Menos no mistério.
32 – A verdadeira epifania abre uma rachadura no mistério, por onde entra a luz, como diria Leonard Cohen.
33 – Os antimagos são uma equipe de demolição.
34 – Só trabalham catalogando escombros.
35 – Com suas estrelas feitas de LED.

