1 – Quando eu era mais novo, a morte vinha antecedida pela fanfarra do telefone, no soar a destempo de seus trinados, em geral depois das dez da noite e antes das seis da manhã.
2 – Agora ela chega sem aviso, numa mensagem de whats que poderia ser sobre qualquer outro assunto.
3 – Não é.
4- Trata-se do único tema irrevogável entre os tantos possíveis na comunicação humana. Prêmios podem ser cancelados, relações, desfeitas ou reatadas.
5 – Meu professor, colega, chefe, amigo Enio Kaufman está morto, me diz o Felipe.
6 – O velho, como o chamávamos, já não está dentro da esfera do cognoscível.
7 – Há muitos anos não o via, desde que vim morar em Buenos Aires. Nas idas ao Brasil, ficávamos sempre de tomar aquele café que não vinha.
8 – É tema comum, eu sei. Rara vez há tempo para o último encontro.
9 – O Enio foi um desses professores totais, que conseguiam fazer de sua matéria a maior de todas, o que não é fácil com a Física. Ninguém faz amigos com Física. Ajudou-me a não ser um desastre total no vestibular, como creio que a milhares de alunos ao longo de sua longa carreira.
10 – Mas eu queria falar da mais importante lição que ele me deu, quando eu já era professor de literatura e seu colega no pré-vestibular.
11 – Era o ano em que um de seus filhos, o Moisés, que se preparava para o vestibular em medicina, foi meu aluno. Certa feita me comentou que tinha feito um elogio da minha aula para o pai e que o velho comentou: Imagina se ele amasse isso.
12 – Lembro-me que aquilo me caiu mal, porque eu gostava muito de dar aula no pré, e me esforçava, como tantos professores ali, em dar meu melhor, como se diz.
13 – Fiquei puto, mas logo esqueci. Estava convencido de que era uma dessas coisas que os chefes pedem: mais dedicação, mais ânimo, o terrível vestir da camiseta.
14 – Anos depois, mas ainda anos antes de estar aqui a escrever em sua memória — o que não faz parar a obra miserável com seu serrar infinito de vergalhões e bate-estacas de boliches vagabundos no canteiro ao lado —, entendi finalmente a palavra mais importante no que ele tinha dito e que eu deixara passar, como é típico nas más interpretações: amor.
15 – Imagina se ele amasse isso.
16 – Às vezes amei o pré, meu amigo.
17 – Mas não a ponto de estar todo lá.
18 – Pois não o amei como amei a música, como amo escrever e coordenar as minhas oficinas de escrita.
19 – Entendi também que não era uma condenação. Uma cobrança. Era um lamento.
20 – É o grama de frustração que sentimos quando os outros não amam o que amamos. É a denúncia de que nenhum amor é total.
21 – Talvez ele quisesse que eu amasse o pré como ele amava, nunca conversamos sobre isso. Não creio.
22 – O Enio era uma pessoa generosa. Acho que ele queria que eu tivesse a mesma alegria que ele encontrava ali por amar como amava.
23 – Uma alegria, perigosa e insustentável, que só encontramos quando nos entregamos de todo ao momento.
24 – Nunca lhe agradeci. Os discípulos são ingratos.
25 – Mas isso o velho sabia.
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Foto da Capa: Reprodução da RBS TV

