1 – Escritores de outras eras tinham o trem como palco de escrita. Seja para eles mesmos, seja para suas histórias.
2- O trem de Anna Kariênina.
3- Agora é só o Uber mesmo. entre.
4- E assim um texto acontece entre uma consulta médica e um café nostálgico.
5- O motorista me olha pelo retrovisor como se supusesse alguma conversa séria, ou o contrário.
6- Não sabemos o aspecto que temos ao escrever.
7- Tainá disse ontem que conhecemos as costas um do outro, mais do que cada qual de nós conhece a própria.
8- O celular quase voa de minhas mãos com a freada na Ramiro.
9- Em Buenos Aires não há lombas, tinha me esquecido deste tipo de solavanco.
10- E também da umidade de Porto Alegre, de sua instabilidade climática.
11- Quem sabe o tobogã da juventude tenha sido resultado de uma imprevisível acumulação de boletins do tempo.
12- O amigo está ocupado, pelo visto, diz o motorista. Ele se chama Jesus.
13- Evitei qualquer gracejo. Penso em um dia me chamando Jesus e tendo de aguentar trocadilhos de aplicativos.
14- Pensar em tantos destinos. Assim escreviam os escritores de trens. E talvez ainda escrevam assim os escritores motorizados. Lembro de algumas crônicas mais recentes que se passavam em táxis.
15- Acho que em Nelson Rodrigues.
16- A Tainá falou de nossas costas, mas acho que começou falando de nossas bundas.
17- De fato, para vê-las só nos reflexos de espelhos e telas.
18- O trânsito está pesado.
19- Por isso, creio que numa espécie de contrapartida, busco escrever leve.
20- Ao fim tudo é movimento.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

