1- É uma manhã ventosa em Buenos Aires.
2- É curioso (e ao mesmo tempo óbvio) termos dado um nome para o que são rajadas de ar em movimento.
3- E depois que esta palavra exista como um comando para nos fazer sentir ou ao menos reconhecer o que já sentíamos.
4- A desolação do alecrim e das lavandas e deles ou é minha?
5- Precisam de água, reparo. O frio não é amigo das plantas.
6- Outra obviedade: nossa compaixão. O que me faz dizer: minhas plantas.
7- O mensageiro dos ventos, deixado pela inquilina anterior, suponho, chacoalha suas gotas amadeiradas. Para alguns é o som do sossego.
8- Para mim é um efeito colateral de ventar.
9- Mas não sacamos o apetrecho. Capaz que o herde o próximo inquilino, a seu tempo.
10- Para além do gradil e da tela das gatas está a cidade. Um quadrante. Palermo Hollywood, uma parte de Colegiales, Palermo velho, Las Cañitas.
11- Saber tanta coisa e saber tão pouco sobre elas. Desde um sofá.
12- Nossos antepassados sabiam pouco, mas sabiam a fundo.
13- Das plantas sobreviveram as resistentes, por um acúmulo de dicas de internet. Aquele sonho de uma fazendola, alimentado pela pandemia, só não me seria um desastre num simulador de videogame.
14- Penso no Padre Vieira. Não raro, quando me ponho a escrever, converso com seu fantasma.
15- O fantasma das antíteses, da síntese como fé.
16- O imperador.
17- Investigando-me, creio que sua aparição tem a ver com o vento. Há uma passagem linda em um de seus sermões.
18- Colei e apaguei muitas vezes a passagem. Se não a leste é porque me venceu a praticidade.
19- É mais prático dizer: venta em Buenos Aires.
20- Envelhecer é ver rarear as soluções complexas.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

