1- Às vezes me espanto, um trovão sem aviso, quando o volume do celular está ligado.
2- Vozes distorcidas pela proximidade dos microfones de lapela. Nenhuma profundidade de campo. Explosões e sibilos de consoantes. Vogais clipadas.
3- A saturação de um áudio implica em perda de informação, assim como quando há muita ou muito pouca luz na fotografia.
4- Perda de informação. O paradoxo de quem só quer ser ouvido.
5- Tanta fala sem escuta havia de terminar assim.
6- Não será surpresa se logo surgir um endofone, que se possa meter goela adentro até sufocar. Soluções da indústria pornô não são exóticas aos influenciadores.
7- Zero o volume. O som da cidade, mesmo com o cão que ladra no vizinho e a bateção da obra na quadra, não perde informação.
8- Já a memória perde. Mas perde por abafamento. Às vezes de uma pessoa restam audíveis na fita embolorada de nosso acervo uma palavra, um gesto.
9- Janjão era seu apelido. Acho que por causa de um livro que lemos aquele ano no colégio. Sexta série. E todos sobrevivemos a isso. Ele era mais gordo do que eu, ocorrência rara se não única, e suava, nas dobras do peito e na pança, e talvez tenha me salvado, sem saber, da alcunha que recebeu.
10- Janjão. Não chegou a ficar um semestre. Sua família era do Norte. O que se dizia era que almoçava duas vezes. Uma em sua casa, ao voltar do colégio, e depois a xepa em algum amigo que ia visitar lá pelas duas.
11- Ele chamava a isso de realmoço.
12- Realmoçou duas vezes lá em casa.
13- Nunca mais na vida o vi. Resta-me também que falava alto, mas sem clipar. Tinha um sorriso bom e redondo.
14- Se o coração ou as outras doenças que me atemorizam não o levaram, deve estar ardendo na febre das canetinhas.
15- Realmoço. Que gênio incompreendido.
Todos os textos de Pedro Gonzaga estão AQUI.
Foto da Capa: Freepik

