1 – Eram horas em campana, o dedo suando na tecla pause, o rec e o play já prontos para receber a nova canção do momento, que chegava antes pelo rádio.
2 – A década de 1980 ia pela metade, e os vinis demoravam a ser lançados, quando não sofriam do mal de terem apenas duas ou três faixas interessantes, quase sempre atrasadas àquela altura. Queríamos os hits, estávamos condenados a viver no fim da América do Sul e somente os DJs podiam nos salvar.
3 – Era preciso estar a postos, cada um tinha que fazer sua parte, e o segredo, além da atenção à tecla pause (perder uma introdução era fatal — pensem em Boys don’t cry ou Girls just wanna have fun), era manter o VU bem alto, os ponteiros cravados, para dar um ganho nos decibéis: queríamos que as fitas K-7 ficassem à beira de saturar, prontas para fazer tremer os alto-falantes da sala.
4 – Tardes infinitas dos meus doze anos. Numa boa jornada era possível encher uma Basf 60, ou, quando os deuses nos sorriam, até uma TDK 90. Como esquecer da alegria táctil de abrir o celofane das embalagens de uma fita importada, com suas raras promessas de qualidade?
5 – Cromo, ferro puro, metal.
6 – Repassemos os procedimentos.
7 – Dedo ágil na tecla pause, VU sestroso, a fita tinindo, e nada podia dar errado, ou quase nada, porque havia uns locutores filhos do capeta, que faziam a assinatura da emissora bem no meio da música, mancomunados a miúdo com rádios que usavam vinhetas espalhafatosas, catapultadas sobre o refrão, justo na hora em que estávamos mais vendidos à ideia da posse definitiva daquele sucesso do momento. E depois vinha uma perda de tempo atroz: reposicionar a fita, esperar que a faixa em questão voltasse a ser executada, o que podia levar horas ou amanhãs, e o esgotamento nervoso de tanta expectativa.
8 – Hoje reparo que gravar músicas naquele tempo fazia subir nosso VU interno mais do que o devido, afetando-lhe a regulagem. Quanto mais para a direita ficava o ponteiro, mais suscetíveis ficávamos, vítimas de uma hipersensibilidade deveras insensível, xingando e condenando quaisquer criaturas incapazes de entender nossa perda. E embora agora se tenha toda música do mundo a distância de um clique, além de outras coisas, de corpos à informação, parece-me que o VU não para de subir.
9 – Mas onde fica o botão desse controle?
10 – No som da sala ficava no módulo do toca-fitas.
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