1 – Toda imitação é uma forma de exagero.
2 – Depois esse exagero deforma até nosso olhar sobre o original.
3 – Não seria difícil mostrar isso na arte, mas é menos trabalhoso usar o exemplo dos comediantes dedicados a imitar as celebridades.
4 – Ou políticos. Sarney. Brasileiros e brasileiras estava antes ou depois de os comediantes começarem a imitá-lo.
5 – Dilma ou o imitador da Dilma. Pelé ou seus imitadores.
6 – A distorção da imitação é uma lente que distorce o objeto.
7 – E por vezes o liquida.
8 – A imitação é uma denúncia da forma, uma fratura, que expõe o quanto o conteúdo dependia dela.
9 – Quanto mais duro o estilo, mais fácil gravá-lo, mais fácil ele se quebra. Por isso é tão fácil imitar políticos. Ou artistas de estilo muito evidente.
10 – Para a sorte desses últimos, o conteúdo tem virtudes que correm nas profundezas, alheias à necessidade do exagero daquilo que é imitável.
11 – Mas não seria possível imitar as sutilezas.
12 – Acredito que sim. Mas isso é do campo do furto, do afanar, aquilo que complementa as novas artes. Se há exagero, é um justo despiste.
13 – Rouba-se a cova, não o pico; o vale, não a montanha.
14 – Na imitação está, amiúde, a lógica do bufê: muito de tudo.
15 – Sushis caricatos. Lasanhas televisivas.
16 – E não se trata de influência, pois há um fluir no processo. É mais um labor de talhar graúdo, de desperdício do resto material.
17 – Por isso me agradam os períodos tardios, em que a própria imitação já se degenerou.
18 – Não digo que seja fácil de tolerar, de aguentar certo carnaval do horror.
19 – Na política, na arte, nos barões, no que quer que imite caducas imitações.
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Foto da Capa: Luis Lubianco / Multishow / Reprodução do Youtube

