1- A forma é como uma máquina.
2- Cada memória tem sua forma.
3- Como máquinas, algumas memórias enferrujam, outras emperram, outras ainda quebram e perdem seu uso evidente.
4- Memórias sem uso disputam o mesmo destino das máquinas inúteis: acumulam-se, arquivam-se, redimem-se, às vezes, como objetos decorativos.
5- É quando sua forma mais se explicita: ora estorvo, ora enfeite. Em algumas ocasiões, não isentas de debates, os dois.
6- O destino natural das coisas dentro do tempo é triste. Não distinto do nosso. Mas temos a forma.
7- Que nos consola, por meio de sua repetição — por fazer visível o tempo e seu jogo —, da ideia de que tudo se perde.
8- A forma preserva nossas memórias não do envelhecimento, mas do envelhecer sem contornos, que não seria excessivo pensar ser a forma do esquecimento.
9- Considerar o que há de máquina em nossas memórias, para cuidar de seu funcionamento, de suas funções.
10- Qual o papel da guardarmos a memória de um aniversário da infância? Da primeira alegria do corpo? Da primeira dor? Pressionamos os botões, acionamos controles, ganhamos algumas moedas.
11- Máquinas ainda ativas.
12- No entanto, no que penso, são nas máquinas em desuso, este museu ou depósito, que todos alojamos, e que, quem haveria de negar, tem uma funcionalidade e uma razão de existir.
13- Talvez porque as formas ativas nunca deixem de ter um eco nas formas que se foram. E este será o nosso eco nos outros quando já nos tiverem desmontado.
Todos os textos de Pedro Gonzaga estão AQUI.
Foto da Capa: Freepik

