1- Comecei minha vida nas artes com a música. Sem nem perceber, porque estava meu amigo de infância, o Quinho, que tocava piano como poucos, vi-me tocando sax, progredindo do sofrível ao razoável em alguns anos.
2- Depois de algumas bandas, deparei-me profissional.
3- Cheguei a amar o sax, mas é um amor exigente, assim como o de viver da música.
4- Não é um texto de lamúrias. Hoje sei que sou capaz de resistir, mas não capaz de acreditar em uma causa maior. O discurso do heroísmo, da importância da arte me soaram sempre um pouco histriônicos, senão estridentes.
5- Agradeço pelos amigos que fiz, pela alegria de dividir o palco com músicos preciosos.
6- Faltou-me sempre este brilho que eles tinham. Não fui compositor, tecnicamente, como instrumentista, era capaz de me defender.
7- Foi quando migrei para a literatura. Para sua solidão constitutiva, sua existência de bastidor.
8- Há leitores, mas estão sempre num lugar futuro, o que na música acontece na esfera das gravações.
9- O show na literatura são os raros saraus. Raros ao menos em nosso tempo.
10- Também é preciso resistência para escrever, mas ela é menos física, é mais anímica, e talvez aí estivesse uma forma de arte que combinasse com minha ausência de estamina.
11- Nessas duas vidas, percebo mais semelhanças do que se costuma supor, desde fora.
12- As mesmas dificuldades econômicas.
13- Os mesmos gargalos para chegar ao público.
14- Gravadoras e editoras não são muito diferentes.
15- Divulgar-se por conta própria nas redes traz o mesmo desgaste.
16- No fim, a diferença reside nas tardes, nos dias gastos, em surdina, ao processo de criação.
17- Como se cria, eis a diferença entre as artes, e também aquilo que é importante encontrar quando temos amor aos espaços de beleza.
Todos os textos de Pedro Gonzaga estão AQUI.
Foto da Capa: Gerada por IA.

