1 – Voando alto em abril, abatido em maio.
2 – Assim diz a famosa letra defendida por Frank Sinatra. Os meses do ano são apenas um achado sonoro. Podiam ser dezembros e janeiros.
3 – Assim é a vida. A orquestração, por sorte, ajuda a aportar um caráter animado à fatalidade.
4 – Há certo método na ideia de pensar em temporadas. Aqui tivemos a euforia de viver em Buenos Aires, depois de tantos planos. Depois a época em que tudo estava muito barato para quem ganhava em moeda estrangeira. Mas alguma coisa os locais aproveitaram, pois havia sempre filas em todos os lugares, havia movimento nas ruas como nunca. Depois o radical ajuste do novo governo, a moeda local com um valor mantido baixo para servir de lastro à inflação e ao jogo de oferecer juros altos para atrair capital externo. Por fim, um desencanto e uma inação que ainda me esforço por compreender.
5 – Entendo que não haja alternativas atraentes, mas é uma derrocada ética e anímica que só encontra par no governo anterior.
6 – De toda maneira, aproxima-se o fim do ano e será hora de revermos os problemas do Brasil. Também são muitos, mas são outros. E há as gentes que amamos.
7 – O problema do momento em que estamos voando alto é que os disparos da metralha só os notaremos quando a lataria já tiver sido perfurada. Parece que em meio a céus azuis viramos alvos fáceis.
8 – Alguns defenderão certo estoicismo diante do mergulho em direção ao chão. Certa corrente gosta muito de apelar aos que nunca terão experimentado os voos mais altos.
9 – Prefiro ouvir Frank Sinatra. O tom de moralismo hipertrofiado, empoado com camadas de condescendência praticada em frente às câmeras, me aborrece cada vez mais, quando não irrita.
10 – Que toque a orquestra, cuja promessa se renova a cada vez que a música volta a tocar.
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Foto da Capa: Frank Sinatra by Gottlieb / Wikipedia

