1 – Sei que se trata de uma experiência deveras comum, que já a li inúmeras vezes mais bem posta do que farei aqui.
2 – Por certo.
3 – Ainda assim, não vejo diminuir a surpresa de só encontrar constância nos olhos, bem mais no olhar que me devolve o espelho.
4 – O tempo em nós é um susto a que nos acostumamos.
5 – Até que em certas manhãs —
6 – Isto.
7 – O espanto de termos envelhecido.
8 – Mudado.
9 – Mudado é melhor porque envolve os procedimentos todos.
10 – Camões falava de um espanto maior: não mudar mais como se costumava, ou seja, mais acorde com o mundo.
11 – Por isso sempre me encantaram as cidades com partes históricas, com bairros clássicos.
12 – Um dos trunfos de Buenos Aires. Os lugares em que a gentrificação ainda não chegou, negócios, cafés, restaurantes em que as décadas se gravam de um modo mais humano, feitas de lambris descolados, vitrines patinadas, luminárias foscas e letreiros que não se atualizam.
13 – Há partes de Buenos Aires que ainda não se parecem com todas as metrópoles visualmente tediosas do mundo.
14 – São um espelho mais sensível para nossa humana obsolescência. Já me basta a cruenta imagem de minhas canas ao lado da calva que me devolve o armarinho.
15 – Ou as sucedâneas dos armarinhos que são as telas dos celulares.
16 – Empreiteiras e grandes farmacêuticas de cosméticos. Que grande associação.
17 – Que grande trabalho de homogeneização.
18 – Talvez fosse mais fácil aceitar o tempo e sua carnificina entre as paredes mugrentas de um café em San Telmo.
19 – É sempre tarde para um Grecin 2000.
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Foto da Capa: Reprodução do Instagram

