1 – É um final de novembro de temperatura bastante amena, vento e ar seco. Das vantagens de estar mais ao sul do mundo.
2 – E também dias largos. Mas este benefício vem de uma imposição que Buenos Aires lança ao país para estar mais alinhada ao fuso comercial do continente.
3 – Os jacarandás estão floridos de roxo. Os jasmineiros com suas pequenas estrelas brancas. O belo ideal civilizatório que é o Rosedal.
4 – Há que haver vida entre o concreto.
5 – O respiro da primavera tardia. Logo haverá calor.
6 – Em dias mais nublados da mente, penso em quantas primaveras tenho pela frente. É uma tontice, mas a morte por vezes exerce o apelo que um dente quebrado tem sobre a língua.
7 – Como ler certas notícias, reparar no modo como se esgarçam os fios de um tecido social que já vinha roto. Depois de me libertar dos problemas brasileiros, prometera-me não tomar para mim as conjunturas argentas.
8 – Dispenso-vos do mas.
9 – Murmuro ou cantarolo Chovendo na roseira. Garoa. Pesquiso algumas outras flores que posso ter visto nas caminhadas que por saúde me fez tomar a médica.
10 – As gordas e vermelha flores do ceibo, que descubro serem símbolos das nações platinas. As amarelas flores de tília.
11 – E as tantas bancas de flores. O preço extorsivo das tulipas. Não sei quanto valem no Brasil, mas aqui custam cinquenta reais por unidade.
12 – Pelo visto aquela famosa febre nunca arrefeceu de todo.
13 – Parou a garoa. Lembro de tomar água. Três litros por dia, me recomendaram.
14 – Parece um propósito. Irrigar o Atacama na primavera.
15 – Abro um livro precioso escrito por Ana Blandiana, a mais importante poeta viva da Romênia. Um livro sobre luto sem ser necessariamente lutuoso. Talvez primavera tardia e não outono.
16 – Lembro que uma vez me perguntei
Se tu e eu teríamos dois anjos da guarda,
Porque estando sempre juntos
Seria um desperdício.
Um só teria sido suficiente.
Não me passou pela cabeça
Que pudéssemos nos separar
E então o anjo
Se veria obrigado a escolher
Ou, talvez, um de nós teria que renunciar.
Sinceramente me diga:
Não te pesa tê-lo deixado
Sozinho para mim?
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Foto da Capa: Rosedal de Palermo / Turismo de Buenos Aires

