De acordo com estimativas do IBGE, até 2070, o número de pessoas com mais de 60 anos no Brasil deverá saltar para 75 milhões, mais do que o dobro dos 33 milhões atuais. Esse aumento coloca o país em uma posição de destaque no cenário global, já que, em 2030, o Brasil terá mais idosos do que crianças, conforme dados da OMS.
É observando esse novo movimento demográfico no Brasil que especialistas têm falado cada vez mais sobre a Economia Prateada, suas oportunidades e seu potencial de se tornar um diferencial como força motriz no país. Devido à combinação deste envelhecimento crescente com a baixa natalidade, é previsto que teremos uma população idosa cada vez maior.
A Economia Prateada, ou “silver economy”, é um conceito ainda em formação, mas um dos mais difundidos é o da Oxford Economics: “trata-se da soma de todas as atividades econômicas associadas às necessidades das pessoas com mais de 50 anos e aos produtos e serviços que elas consomem ou um dia irão consumir”. Compreendendo esse conceito, refere-se a tudo o que é consumido por quem tem mais de 50 anos, desde produtos a serviços, de advogados a arquitetos, de vitaminas a móveis adaptados, de roteiros turísticos apropriados a novos modelos de moradia. Mas, daí, pergunto: o quanto você percebe, no mercado “real”, essa intenção?
Conforme números levantados pela Revista Exame, em 2024, a geração prateada movimentou 1,8 trilhão de reais, o que corresponde a 24% do consumo privado no país. Mas será que todo esse valor foi intencional? Ou seja, as empresas teriam feito um esforço com propósito para vender aos 50+ ou simplesmente foram “compradas” porque não havia outras com propostas especializadas e cuidadas para as necessidades dos acima de 50?
Vamos lembrar que existe muita diversidade quando falamos em 50+. Somente a idade cronológica não é suficiente para rotular comportamento, tipo “os 50+”, “os 60+”, “os 70+”, etc. Mesmo entre pessoas da mesma idade, encontraremos pessoas com condições de saúde totalmente distintas, por exemplo. Isto sem considerar as questões de sexo, classe, raça, estilo de vida, cultura local, entre tantas outras que interferirão na construção das necessidades dos públicos para os quais os serviços e produtos pretendem atender.
Estou levantando essa questão porque percebo muita generalização no que atualmente existe no que se diz especializado para o mercado sênior, ou “50+”. Também porque não entendo a falta de esforço em criar soluções especialmente voltadas para este grande grupo, que, com certeza, será cada vez maior no país.
Há, no entanto, na definição da Economia Prateada, uma linha demarcadora: estamos limitando o conceito ao grupo populacional acima dos 50 anos. Entretanto, o tema longevidade e envelhecimento é de interesse apenas para quem já cruzou essa idade? Sabemos que não.
Desde a infância, é preciso que comecemos a nos preparar para a velhice. Estudos mostram que uma criança já tem introjetado o idadismo a partir dos quatro anos, por exemplo. E, também por meio de pesquisas, sabemos que o autoidadismo pode diminuir o tempo de vida de uma pessoa em até 7,5 anos. Portanto, programas de educação são fundamentais para desenvolver gerações de pessoas preparadas para envelhecer física, mental e financeiramente. Caso contrário, no futuro, como sociedade, teremos, além dos custos com as doenças, também os custos advindos das dificuldades econômicas das pessoas que não se prepararam para envelhecer.
Por isso, gosto mais do conceito de Ecossistema da Longevidade, pois acho mais completo, abraçando a complexidade do contexto sobre o qual o tema Longevidade e Envelhecimento adquire relevância na sociedade atual. No Movimento LAB60+, trabalhamos com esse conceito no qual entendemos esse conjunto como um ecossistema no qual se articulam e comunicam poder público, iniciativa privada, sociedade civil, movimentos sociais e coletivos, fomentando oportunidades e propondo soluções para a sociedade frente aos desafios e necessidades relacionados à longevidade e envelhecimento populacional.
- Projetos para a longevidade e o envelhecimento precisam acontecer desde a infância, para propiciar uma velhice de qualidade.
- Programas intergeracionais são soluções importantes para combater o idadismo.
- O empreendedor jovem pode querer e deve ser incentivado a atuar na Economia Prateada, assim como o empreendedor sênior pode desejar atuar em outras áreas.
- A troca entre sociedade civil, poder público e setor privado, nas várias esferas onde ela pode ser feita para inserir iniciativas relativas à longevidade e envelhecimento, seja na área da saúde, assistência social, segurança pública, economia, educação, cultura ou lazer, é e será sempre positiva.
- O papel ativista, reivindicatório dos movimentos sociais ou colaborativo com os demais atores do Ecossistema, realizando o seu propósito.
Tudo isso é parte do Ecossistema da Longevidade. É importante um planejamento estratégico, uma grande articulação nacional. Os atores deste ecossistema existem. Há eventos, feiras, seminários que buscam reunir esses atores, mas a concertação necessária, o rumo, a bússola, não está orientada. Para mim, essa é uma missão do poder público, porque essa é uma área que deveria ser percebida como estratégica. Em se tratando de Economia Prateada, globalmente o mercado já movimenta 15 trilhões de dólares por ano, superando a soma dos PIBs da Alemanha, Japão e Índia.
Aqui, falamos que a Geração Prateada movimentou, em 2024, 1,8 trilhão de reais no Brasil. Imagina se ampliarmos esse número para o conceito de Ecossistema da Longevidade? As milhares de pessoas beneficiadas. Os trilhões de reais de receita. O futuro abundante e próspero que poderíamos criar? Mas é preciso que alguém pegue esse bastão.
Fontes:
Exame 1
Exame 2
Oxford
Unisinos
Paho
Lab Nova Longevidade
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Foto da Capa: Gerada por IA.