Sou tomada por um sentimento familiar. Parece que estou na Bahia: o barulho manso do mar, o calor, os coqueiros balançando ao vento, a temperatura do mar (27 graus Celsius), a tranquilidade das pessoas.
Estou, na verdade, em Cabo Verde, um arquipélago composto por dez ilhas no meio do Atlântico, na altura do Senegal. Me encontro na ilha de Santiago, mais especificamente em Cidade Velha, a mais antiga de Cabo Verde e a primeira cidade construída pelos europeus na África subsaariana, fundada em 1462.
Cidade Velha é mais uma vila do que, de fato, uma cidade. Tem um charme que combina o mar azul-azul, as casinhas coloridas, a Ilha do Fogo — um vulcão ativo — majestosa ao fundo, e o cheiro constante de comida sendo preparada. O tempo parece passar de forma diferente, sem pressa. O lema daqui é “no stress” e “ka tem problema” — que significa “não tem problema” em Kriolu, língua local.
Vim, a convite do meu irmão, Filipe, que está na ilha trabalhando em um longa-metragem baseado em fatos reais, sobre pescadores que se perderam em alto-mar e ficaram meses à deriva, dirigido pelo cineasta angolano Zezé Gamboa. Meu irmão, generoso como sempre, não quis viver essa experiência sem compartilhá-la comigo — e é incrível ver como seu trabalho e sua forma de estar no mundo criam pontes, não só registram as histórias.
Estou em uma workation, termo que se usa para esse tipo de viagem: work + vacation (trabalho + viagem). Consegui adiantar minhas demandas na semana passada para não ter que perder muitas horas trabalhando, mas não estou exatamente de férias.
Minha melhor amiga, Flávia, veio comigo aproveitar esse delicioso pedacinho da África, e estamos tendo uma viagem realmente mágica, em que nossa amizade, que é alicerce desde a adolescência, se fortalece ainda mais. Aqui, tudo é diferente, e encontramos uma na outra a segurança que precisamos para explorar o desconhecido.
Ontem, folga do meu irmão, fomos os três mergulhar nas águas quentinhas desse lado do Atlântico — que, sim, é o mesmo de Portugal, onde no momento o mar se encontra a 16 graus Celsius — e nosso instrutor de mergulho nos contou uma história que ilustra bem a essência da experiência cabo-verdiana.
Tony, espanhol, é mergulhador profissional, e havia chegado a Cabo Verde há menos de uma semana quando pegou dengue. Ficou muito mal, com febre alta, dores pelo corpo e uma fraqueza avassaladora, e quem cuidou dele foram suas vizinhas, desconhecidas ainda. Ele apenas comentou com alguém que estava doente, e então, por sete dias seguidos, as mulheres que moravam nas redondezas levavam café da manhã, almoço e jantar, e o ajudavam pacientemente a se recuperar. Sem pedir nada em troca, apenas, para elas, um simples ato de empatia.
Onde mais no mundo isso ainda acontece? Me senti mais parte da comunidade em Cabo Verde, em questão de dias, do que me sinto na Ericeira (Portugal), onde vivo há quase quatro anos. Existe aqui um senso de gentileza, de cuidado, de afeto genuíno, que é diferente.
Conhecemos Natalino assim: andávamos apressados, debaixo do sol do meio-dia, e ele nos ofereceu uma carona sem que pedíssemos. O santo bateu e, no dia seguinte, ele acabou nos guiando pelos outros cantos da ilha. A senhora Antú, dona do restaurante Kaza Antú, quando elogiei sua mousse de kamoka (milho torrado), encheu dois potinhos e nos entregou com um sorriso. Para o passeio, explicou. A senhora Coumba, que vendia artesanato, insistiu em nos presentear com pulseiras de búzios. O moço da van nos levou ao hotel e recusou qualquer pagamento. Estevão, o pescador, que se tornou fã do meu irmão, convidou o primo Marcel para tocar músicas de sua autoria enquanto jantávamos, apenas para nos agradar. Joana, assistente local de direção, contou que via baleias de sua janela e nos ofereceu para ficarmos em sua casa na próxima visita. Depois de alguns dias, Natalino já dizia nos considerar de sua família. E nós acreditávamos – porque era verdade, também sentíamos essa conexão.
Escrevo agora do aeroporto. Natalino nos trouxe, mas, antes de chegarmos aqui, fez uma parada no mercado Sucupira. Comprou pulseirinhas. Para que não o esquecêssemos, disse. Como se fosse possível.
Talvez seja mais fácil se deixar atravessar pelas relações quando encontramos esse nível de abertura no outro. Penso em como nos habituamos a viver isolados em nosso individualismo, protegidos por muros, fones de ouvido, medos e telas. Nos acostumamos a caminhar apressados olhando para o celular, a medir o mundo pela distância entre um compromisso e outro. O contato humano genuíno virou raridade. Esquecemos que somos seres interdependentes, que precisamos uns dos outros não apenas em momentos de crise, mas no cotidiano ordinário. Em Cabo Verde, esse tecido social ainda se mantém intacto: as pessoas se conhecem, se cumprimentam, se importam, se cuidam. São prioridade umas para as outras.
Agradeço ao Filipe por esse presente inesperado. Volto para casa transformada, com a certeza de que irei voltar, e, na cabeça, uma das canções que Marcel cantou para nós sobre seu país: “Ken aki ben, dexa sodadi, ken aki fika, é na lembransa”.
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Foto da Capa: Filipe Ruffato / Divulgação.

