Em 1624, John Donne, a mesma pessoa que nos perguntou por quem os sinos dobram, escreveu que “o homem é um diminutivo do nada”. Quatrocentos e sessenta e dois anos se passaram. O que será que ele diria se nos visse agora, nucleares e mais interligados a nossos celulares que às pessoas, inclusive as que dizemos que amamos? Que mudou o amor e a forma de amar ou que, feito um Rinoceronte-negro-do-oeste, fomos extintos? Teremos sido, praticamente os oito bilhões de sapiens, abduzidos pelo egoísmo e fagocitados por alguma estranha forma de existência?
Hoje de manhã, abrindo o Instagram, a imagem que não me desejou bom dia nem me trouxe um pingo de ar ou de arte foi a de um bombardeio em Teerã. A cidade coração de um país atingida, e, aí, sem me importar com quem tem ou não razão, se é que é possível em nome do que for, explodir e matar, doeram-me o peito e os olhos. Lacrimosa, comecei a semana, sentindo se dissolver uma parte da crença que ainda tenho em nós ou em nossa “caligrafia da fé”, como o fotógrafo Daisson Flach nomeia o ato de esperança que une os seres humanos.
Civilização implica diálogo. Conversar é preciso. E, para tanto, além das palavras, pelo menos três coisas são essenciais: que sejamos sinceros; que nos consideremos iguais e não superiores ao outro; e que estejamos dispostos a mudar de opinião. Para alguns, é difícil. Por vezes, a vaidade fala mais alto que o privilégio de mover as sinapses em um novo aprendizado. Eu gosto do novo e do antigo. Meu critério de valorização e de apego por pessoas, ideias e coisas não passa por marcações de tempo.
O tempo, Raduan Nassar escreveu, está em tudo. Por mais necessária que seja a ordem dos segundos, minutos, horas, ele não obedece a seu controle. Controle é ilusão. E ilusão não passa de um adiamento das perdas e das tristezas que nos rondam, ou dos cadáveres mesmo. “O cadáver que plantaste no ano passado em teu jardim/Já começou a brotar? Dará flores este ano?”, T.S. Eliot pergunta no poema O Enterro dos Mortos. “Como é difícil morrer”, foi a última frase que ouvi de minha mãe sabedora de que só lhe restava a espera. Meu conceito de espera mudou naquela tarde. Esperar também é uma busca.
Na trama de Sirât, representante da Espanha na corrida pelo Oscar 2026 de Melhor Filme Internacional, Luís, um homem comum espera encontrar, entre montanhas e desertos marroquinos e em um cenário de vulnerabilidade e solidão, a filha desaparecida. O diretor, Oliver Laxe, é o homem que disse que nós, brasileiros, votaríamos até em um sapato se ele concorresse a alguma coisa. Sem dúvida, uma grosseria que o diminui. “O homem é um diminutivo do nada.” Suas obras não. Por mim, Sirât é o vencedor. Até vê-lo, meu coração batia pelo Valor Sentimental, do norueguês Joaquim Trier. Como se percebe, nunca torci pelo nosso Agente Secreto.
Não gostei desse filme do Kleber Mendonça Filho. E não está na minha natureza e no meu processo mental, por mais que a arte seja catalogada em gêneros, geografias etc., colocar cidadania e questões políticas antes e acima da fruição estética. Para mim, a arte, independentemente de hemisfério, continente, país e cidade, diz respeito à circunstância humana. Eu me sinto mais terráquea que sul-americana, ou brasileira, ou gaúcha ou filha da cidade em que nasci. Feito um cachorro, uma girafa, um camundongo, uma barata, faço parte do planeta, torrão passível de ser pisoteado, como tantos outros andam sendo por aí.
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Foto da Capa: Sirât / Divulgação

