“Leave the gun, take the cannoli.” Essa frase ficou famosa. É do primeiro filme da trilogia O Poderoso Chefão. Uma ordem dada pelo mafioso Clemenza. Dirigida ao capanga, que acabara de eliminar o motorista. Um traidor do Capo, Dom Corleone. Poderia servir de bordão para várias situações que vivemos.
O cannolo é um doce típico da Sicília, terra que também ofertou ao mundo a Máfia. Instituição respeitável como exemplo de organização. Criminosa, sem dúvida, porém modelar.
O cannolo – cannoli no plural –, ao contrário da máfia, é extrema delicadeza. Massa fina, crocante (entre os ingredientes, vinho branco seco), em forma de tubo e recheada por um leve creme de ricota de ovelha misturada, em sua receita original, com pedacinhos de frutas cristalizadas. Em Messina, a variação é dada por gotas de chocolate; e há outras: creme chantilly, ricota de búfala, creme de pistache e, não dá para esquecer, a onipresente nutella. Devido à umidade do creme, o recheio é, idealmente, colocado na hora. Assim, a massa não perde sua crocância.
A referência mais antiga vem do filósofo romano Cícero. No ano 70 a.C., em viagem à Sicília, ele se mostrou fascinado pelo tubete de farinha recheado com creme de leite macio. Dá até para imaginá-lo, com o devido respeito, lambuzando-se com aquele “Tubus farianarius dulcíssimo edulio ex lacte fartus”.
Mas a coisa parece ter pegado vigor quando a ilha foi ocupada pelos muçulmanos. A Sicília consistiu num emirado por quase duzentos anos, entre os séculos 9 e 11. No século 13, a maioria dos habitantes ainda era muçulmana. Segundo se conta, a receita teria sido adaptada pelas mulheres dos haréns em homenagem aos seus donos – há histórias parecidas que também relacionam o papel das odaliscas à gênese das esfirras e dos quibes. O que parece inegável é que foram os árabes que adicionaram açúcar à ricota.
Outros atribuem a origem dos cannoli aos conventos. Uma sobremesa típica do período carnavalesco, preparada por freiras na clausura. O intuito era lúdico, uma “inocente” brincadeira. Em tempos de menor malícia, um símbolo fálico, num período de maior permissividade e diversão. Para outros ainda, representaria a fertilidade.
Na minha infância, na Taquara do Mundo Novo, no armazém da Veloni – ficava na esquina do Grupo Escolar Rodolfo von Ihering – e, em balcões de padarias de então, era possível encontrar uma versão do doce. “Nariz entupido” pode até ser uma denominação mais pudica, mas não chega a ser virtuosa.
De guloseima típica do carnaval, passou a ser desejo de todos os dias. Com a emigração italiana para o mundo e, em particular, para os Estados Unidos nas primeiras décadas do século 20, tornou-se uma afetiva e gustativa lembrança das origens mediterrâneas. Assim, encaixa-se na cena do filme que retrata a saga da família Corleone.
Sonhe-se com um decreto. Que se transforme o universo em uma pasticcerie e que cada qual escolha o seu cannolo. Refestele-se, com parcimônia e bom senso, em edulcoradas cremosidades, invente novos sabores, troque receitas. Respeite com gentileza as crocâncias. Se houver guerra, que seja de tortas.
A exemplo de outras massas italianas, são vários os “calibres” do cannolo. Há desde os gigantescos de até 20 centímetros de comprimento por 5 de diâmetro (há ainda maiores para ocasiões especiais), mas também os cannulichi, do tamanho e espessura de um dedo. Servem a todos os gostos e apetites.
Quando há tanta necessidade de parecer viril, fazendo “arminha” com a mão ou valendo-se de outros símbolos – fuzis, mísseis, ogivas – impõe-se a ordem: Larguem tudo, agarrem-se nos cannoli! A vida poderia ser bem mais doce e fértil.
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