A todas as vozes negras que fizeram do 20 de Novembro um marco de consciência e resistência: é tempo de Vintear!
Olá, 20 de Novembro, tu estás quase chegando. Finalmente vou te ver. Anoto tua chegada não apenas como uma data no calendário: destaco como uma presença. És uma lembrança que, todos os anos, desperta em mim a mesma sensação de pertencimento e urgência. Quando vens, sinto que é tempo de Vintear: reviver memórias, renovar o propósito, celebrar o que fomos e o que seguimos construindo.
Nascestes, 20 de Novembro, do gesto de evocação do Grupo Palmares (Porto Alegre 1971-1978), quando militantes decidiram resgatar a figura de Zumbi como símbolo maior da luta pela liberdade. Nasceste da coragem e da estratégia de substituir o 13 de Maio — data imposta pela elite branca como marco da abolição — por um dia que de fato representasse o protagonismo negro. O dia em que o líder Zumbi foi capturado e morto, mas também o dia em que a liberdade se reergueu em nós.
Lembro de te ver na efervescência do Movimento Negro dos anos 1970. Sim, eu estava lá, participando junto ao Grupo Cultural Razão Negra (Porto Alegre 1976-1986) das primeiras manifestações que celebravam e significavam o teu nome. A arte era a nossa arma e o teatro amador, a nossa voz. A convite do Grupo Palmares, levamos ao palco a adaptação do conto Esperando o Embaixador, do livro de contos O Carro do Êxito (1972), de Oswaldo de Camargo, que também estava presente naquela noite de emoção e afirmação. Foi um momento de união, em que a cultura preta se impôs como resistência viva.
Havia o entusiasmo dos coletivos e das ideias que se cruzavam, principalmente nos encontros de sexta-feira, entre a Av. Borges de Medeiros e a Rua da Praia (Rua dos Andradas), reconhecido como um dos principais pontos de encontro da juventude negra porto-alegrense. Alguns de nós chamavam aquele entorno de Esquina do Zaire, lembras?
Foram tempos duros em que o país vivia sob a repressão da ditadura militar e, ainda assim, entre os silêncios impostos, cada gesto e cada fala eram uma forma de dizer: estamos aqui. Estivemos e estaremos sempre.
Querido 20 de Novembro: seria maravilhoso não precisar esperar tua chegada para eu me sentir valorizada ou para que alguns conheçam parte da minha história ancestral. Adoraria que o respeito e o reconhecimento não dependessem apenas da tua vinda. Seria notável se o país soubesse celebrar a negritude nos outros meses do ano — na rotina, nas escolas, nos meios de comunicação, nos espaços de poder. Que o teu espírito estivesse presente em cada gesto de igualdade, em cada ato de empatia.
É importante que venhas muitas e muitas vezes mais e que visites os outros meses do ano. Pode concentrar teus esforços nesse exercício, trazendo a bagagem que desejares. Todos os teus trajes, objetos e memórias serão bem-vindos e terão lugar para serem colocados em circulação. Nas próximas visitas, sugiro que venhas acompanhado das vozes que foram silenciadas e dos saberes que tentaram apagar. Que sigas como mensageiro da continuidade.
Por aqui, de onde escrevo, tua presença é ainda mais necessária. O chão sulino, tantas vezes moldado pela narrativa da branquitude, precisa se abrir para reconhecer a herança africana que o sustenta. Sinto-me esperançosa, pois tua presença inspira o desdobramento de outras histórias em escolas, universidades, instituições culturais e outros espaços sociais, para que olhem, estudem, reflitam e compreendam o legado negro.
Já passaste dos 50 anos. Porém, quando te percebo, ainda vejo em ti o viço da juventude. Tu não envelheces! Estás cheio de vigor, inquieto, aprendendo a novidade de lidar com o reconhecimento pelo qual tanto lutou e esperou conquistar. E eu, que te acompanho desde o início, tenho orgulho de ver o quanto cresceste e o quanto ainda tens para ensinar.
Espero que sigamos por muito tempo juntos, querido 20 de Novembro, e que, a cada visita, as memórias que evocas sejam iluminadas e consigam indicar os caminhos para o futuro. Porque, no fundo, a tua história é também a minha.
Com respeito e esperança,
De quem vinteia contigo.
Nota: a foto que ilustra essa coluna é do teatro amador do Grupo Cultural Razão Negra. No registro, a apresentação da adaptação do conto “O Carro do Êxito”, em livro homônimo de Oswaldo de Camargo, na Associação Satélite Prontidão, no ano de 1977. A imagem integra o acervo de Isamara Angelos da Silva, tendo sido cedida para a tese de doutorado de Letícia Barbosa, que assina este artigo.
Letícia Maria Barbosa é doutora em Letras pela UniRitter/UCS, licenciada em Letras, nas áreas de Literatura e Português pela FAPA, especialista em Literatura Infantojuvenil pela PUCRS e mestra em Geografia Humana pela UFRGS. Instagram: @leticia.barbosa64
Todos os textos de membros da Odabá estão AQUI.

