Por Max de Oliveira
“Frederico II era um dos monarcas do século XVII, caracterizado como ‘déspota esclarecido’. O Imperador era um homem de letras, culto, grande colecionador de arte francesa, escritor com pretensões a filósofo e amigo de Voltaire, com quem mantinha correspondência. Muito afeiçoado à cultura francesa, escreveu suas memórias nessa língua.
Tendo mandado construir um palácio de verão em Potsdam, próximo a Berlim, escolheu a encosta de uma colina, onde já se elevava um moinho de vento, o Moinho de Sans-Souci (‘sem preocupação’), nome que decidiu dar ao seu palácio.
Alguns anos após, tendo resolvido aumentar algumas alas do palácio e precisando então avançar sobre o terreno onde se encontrava aquele antigo moinho, decidiu comprá-lo.
Chamado o moleiro, o rei fez-lhe a proposta de comprar o moinho e a propriedade. O moleiro recusou, argumentando que não poderia vender a casa na qual seu pai havia falecido, que lhe deixara por testamento, e onde seus filhos nasceriam e se criariam.
O imperador então, falando a linguagem da arrogância e da arbitrariedade, insistiu na sua oferta, acrescentando que, se quisesse, podia simplesmente tomar-lhe a propriedade. Coube então ao aldeão simples, com firmeza e dignidade, dar a resposta que ficou registrada nos anais históricos da humanidade:
‘Isso seria verdade, se não houvesse juízes em Berlim!’”
Sua Excelência Barão Celsus von Melius,
Soube aqui na prisão, por meio de um dos carcereiros, que Vossa Excelência sentiu-se ultrajado com a recente indicação do Marquês Sergius Morus II ao cargo de Barão. O nosso guarda não é a pessoa pior do mundo. Tanto isso é verdade que, eventualmente, nos deixam na sala do comandante para assistir às sessões de enforcamento patrocinadas pelo novo Imperador. Ele nos diz que é a única diversão que pode proporcionar a infelizes como nós, vossos encarcerados súditos. Aconselho: “Fique não…, não fique ultrajado”. Aliás, não nutra qualquer sentimento ruim nessa idade. Essas coisas em velho são sempre observadas como ranzinzice. Quem sabe esse mau humor não caiba em mim? Excetuando-se em alguns momentos, a vida não me sorriu muito com sorte desde o dia em que minha mãe colocou a mim e meus irmãos na carroça e viemos para Berlim. Aliás, nesse tempo todo, uma vez até pensei que havia tirado a sorte grande. Não sei se Vossa Excelência lembra; talvez, na época, Vossa Excelência fosse um duque ou um conde.
Eu fui preso por ter organizado alguns camponeses a pegar lascas de madeira nos bosques da Renânia. Governava nosso país o falecido Imperador Johannes des Taufers, o Incitatus, e fui trazido à frente do baronato que cuidava da justiça. Fui muito bem recebido por todos, embora deva admitir que as algemas estavam apertadas e que, de lá para cá, as celas continuam frias e fedorentas. Mas o que importa é que me senti tão bem tratado por Vossas Excelências que até pensei haver me tornado um par e não um pária. Imaginei até acrescentar ao meu nome um Von, depois me contentei simplesmente com Tistenfisch, porque adoro esse fruto do mar.
ó agora me dei conta de que uma parcela da minha liberdade e bom tratamento se deveu, em grande parte, a um jovem Advogado que gritava, acompanhado de milhares de camponeses, “camponeses do mundo, uni-vos”, “os homens fazem a sua história” e outras coisas que eu não tinha a menor ideia do significado na época. Mas, voltando ao nosso assunto, talvez Vossa Excelência também não se recorde que o Marquês Sergius Morus II é o mesmo que um dia tentou prender-me sob a acusação de que eu havia roubado o elefante que ele mandou pintar de rosa e que iria dar à sua esposa, a Sra. Wolff Morus, mui digníssima Marquesa de Curitiba. Vossa Excelência há de convir que é difícil roubar um elefante e escondê-lo onde resido ou em qualquer outro lugar que não seja numa manada de elefantes, ainda mais pintado de rosa. Mas ele insistiu na acusação e até os recibos de serviço que enviei à deposta Imperatriz Rousseff von Schon Horizont ele interceptou, imaginando que a mui amada regente tivesse relação com o desaparecimento do paquiderme.
Soube que ela pediu a intervenção do Conselho dos 11 Barões da Justiça, mas até agora ela não obteve resposta. Deixemos isso de lado. O certo é que a minha vida virou um inferno e o elefante, procurado nos 4 cantos do mundo, ainda não foi achado. Ocorre que ser jogado em desgraça me trouxe certa serenidade. Gosto de Vossa Excelência e peço-lhe muita calma nessa hora. Vossa Excelência sabe que o Marquês/Barão, nem sei como vou me dirigir a Ele, goza de muito prestígio com o Imperador. Soube até que o filho, o Príncipe Eduard von Bolsonarus, anda meio irritado com vocês e disse na Universidade de Duisburg-Essen que vai mandar um Cabo e um Soldado para enxotá-los da sala. Como disse, o nosso carcereiro é gente do bem e ele confessou que ouviu de um soldado amigo seu, que ouviu de um capitão, que não era bem assim a frase, na verdade ele disse que: “Vou mandar um soldado com um cabo de vassoura”. O resto Vossa Excelência conhece porque, parece, andou se pronunciando com o mesmo ultraje na imprensa.
Por fim, peço-lhe cuidado. Em breve a sua aposentadoria chegará e que Vossa Excelência retornará às suas terras. Soube que estão improdutivas e andam sendo cercadas por outros Barões. Portanto, o seu poder será muito reduzido e o Marquês/Barão parece ser um rapaz paciente e vingativo. Lembre-se de que seu colega, o Marquês/Barão, Alexander von Moralius fez a mesma trajetória trilhada pelo recém-indicado e hoje anda se vingando de todos os que pode. Vossa Excelência percebeu que ambos têm moral no nome: Morus e Moralius? Assim, até o fim do seu mandato, guarde seus sentimentos porque, pelo que ouvi falar, Vossa Excelência terá muito trabalho com o Príncipe Witzel I da Baviera, com recente seu anúncio de mandar matar vendedores ilegais de vinho. Ou com Dorelius V, da Vestfália, que, quando simples Bispo de Baden, mandou trocar a refeição dos órfãos por comida de cachorro. Dizem até que alguns filhos de burgueses andam a falar que vão matar, empalados, a “judaida”. Ou seja, Vossa Excelência terá muito o que fazer no tempo que lhe resta no baronato de justiça ou pode ficar do jeito que esteve nos últimos anos: em silêncio e se fazendo de morto.
Sem mais, seu amado servo,
Inacius, Tistenfisch, Silvius.
Fábio André de Farias é desembargador corregedor do Tribunal Regional do Trabalho da Sexta Região (PE).
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Foto da Capa: Gerada por IA.

