Em 14 de maio de 1990, escrevi essa modesta missiva para minha primogênita, Camila, nascida no dia 8 do mês anterior. Foi a primeira de uma série, escrita para ela e, depois, para sua irmãzinha, Cecília. Hoje tomo a liberdade de publicá-la aqui, observando a carta como um gênero literário e reafirmando tudo dito para elas ao longo desses anos, mas, sobretudo, incluindo nesse despretensioso grito amoroso minha netinha Ara e meus netinhos Cícero e Zui.
Minha menininha amada,
Pudesse eu tomar-te em meus braços e, com energia, imunizar-te das dores da vida. Ah! Se tivesse eu o dom de livrar-te da pequena cólica de tua infância à mais cruel decepção que possa a vida reservar-te. Fosse eu o Criador, para ti faria um novo paraíso, pleno de dons preternaturais, vivo de fantasias reais. Tomaria com zelo o dever de preparar-te o cálice vivificante da felicidade absoluta, fosse possível realizar tal façanha. A minha vida daria, toda ela, pudesse eu privar-te das ciladas arbitrárias da existência humana.
Vê, minha filha, quanta ilusão habita o coração desse pai que é por ti somente amor. Se Deus faria da oblação do meu amor a plenitude de tua vida. Se mágico, arrebataria com engenharia e arte o eco insistente de tua finitude para os mais distantes rincões. Se bruxo, munido das fórmulas mais fortes do meu ofício, iria combater o “elo” das contradições que inexplicavelmente faz morada em todos nós.
Demasiada pretensão a minha. Querer-te assim tão venturosa. Esquecer dos viçosos espinhos que guardam a singeleza das rosas, da sutilidade do sândalo que perfuma o machado que o golpeia. Olvidar que somente quem usa as próprias pernas para fazer seu caminho é capaz de encontrar uma felicidade pra chamar de sua. Ponho-me a pensar na infância sem a irreverência dos porquês e na juventude sem a ousadia das descobertas. Imagine um deus cuidadoso que, no ensejo de fazer-nos eternamente felizes, tivesse que, em contrapartida, nos arrancar a liberdade. Não seria vaidade do artífice desejar a sua obra assim tão perfeita pela engenhosidade de suas mãos? Não seria este um capricho imperdoável, fazermo-nos adornos tão perfeitos e belos quanto escravos da própria natureza?
E um mistério arcano esse do tornar-se pessoa. Não, decididamente eu prefiro ver-te erguer tu mesmo a tua moradia e fazer o que te aprouver desta vida para a qual Deus te chama amoroso. Já me é deverasmente gratificante ter a possibilidade de ensaiar contigo os primeiros passos desta tua/nossa história. Vence, com teus pés, essa cilada. Experimenta, ainda que pouco a pouco, como embriaga esse desejo louco de viver.
Estou tentando compreender a vida. Talvez porque a queira muito. Digo sempre a ela que comigo não adianta blefar, porque eu jamais desistirei dela. Estou preso à vida. E daí? Ela também está presa a mim. Estou sinceramente convencido de que a certeza da morte não é um desespero, sobretudo porque tenho fé no Senhor da vida. Posso dizer que desafiei a vida sempre que necessário, e, entre padecimentos e prazeres, estou vivendo sempre. Foi sempre prazeroso encarar o desafio e, mesmo quando enlaçado por ele, saber que este é o preço do nosso atrevimento. Sim! Eu acredito no valor positivo da vida, com toda a dramaticidade que ela encerra.
Ouve, minha pequena. Hoje teu choro me comove e tua dorzinha de criança preocupa meu coração de pai. Mas estou tentando me convencer de que tua vida não é, e nem pode ser, diferente daquela de todo finito ser. Terás também presente à tua vida a sutileza da dor. Que posso eu alegar em teu favor? Qual a palavra para o teu reconforto? Gostaria de não falar. Pudesse, dar-te-ia tão somente meu testemunho. Mas sei que o sofrimento é essencial à vida. Sei também que cada um tem o seu jeito de enfrentá-lo. Espero saber respeitar o teu.
Sou uma pessoa simples, como todas as outras. Um mortal comum, vivente entre os demais. Cedo ou tarde, minha humanidade haverá de se descortinar para ti. Talvez me distinga de alguns pelo meu apego à vida. Viver para mim não é obrigação, muito menos penalidade, mas dom e aventura, é uma dádiva gratificante de um Pai cujo amor transbordou em nós. Nem eu me conheço totalmente. Quem se conhece? Já me surpreendi nas voltas do meu próprio ser. Levitei no manto da espiritualidade verdadeira, embriaguei-me no cálice do meu veneno. Mordi minha língua… Estou vivendo, e é isto que me interessa. Estou aprendendo, mesmo quando derrotado, e continuo sempre aprendendo sobre a vida. Às vezes nem mesmo eu me reconheço. Mas o que sou? Não sei! Não me interessa uma resposta pronta e acabada. Eu sou aquele que busca, pois sei que a vontade de viver me cura sempre de cada mazela. Posso até me ver abatido por pouca coisa, mas creio que o meu valor maior sou eu mesmo. Desculpe-me a pretensão! Sou radical, exagerado em quase tudo que faço. Sou tão vulnerável que tenho medo de mim. Mas não me creio covarde. Aprendi que a vida clama ousadia. Gosto do quente e do sal. Não sou afeito a amenidades. Passei a vida desafiando a mim mesmo, fui várias vezes derrotado. Mas vou continuar assim. Não me sinto um vitorioso, ainda bem, pois me penso como um teimoso.
Normalmente, minha amada, nós nos julgamos apenas pelo exílio e pela escravidão, esquecemos da luta pela liberdade. A vida não é formada apenas de dor e desespero, mas sim da energia vivificante que habita em nossos corações. Por que enfatizar tanto a dor e o sofrimento, quando existem tantos e tão bons momentos? Por que desmerecer as belas experiências da vida, ainda que pequenas e efêmeras, ressaltando apenas nossa pequenez? Quando a vida é o todo! Quando essa contradição não é nossa condenação, mas a dinâmica de nossa própria existência. Experiências pouco gratificantes… quem não as tem? Sofrimentos, todos experimentamos das mais diferentes formas. Mas a vida não se reduz a isso. Morar na dor é ficar imobilizado. Ignorá-la é permanecer alienado. Como dizia alguém de cujo nome não recordo: “barco perdido, bem carregado”.
Cá estou a perguntar-me qual o legado que dessa minha atribulada vida eu gostaria de deixar-te. Não sei! Mas te digo com simplicidade e humildade que desejo passar para ti uma energia muito positiva dessa minha “loucura” pela vida. O amor pela vida que há em mim, queira Deus, possa renovar-se em ti. E assim, quando for fazer filosofança na casa do verdadeiro MESTRE, levarei para lá, como certo conteúdo de minhas conversações, a certeza de continuar vencendo os sofrimentos terrenos e desafiando a vida nessa minha pequenina flor cujos espinhos um dia brotarão. Quero te legar uma grande e profunda história de amor.
Eu não imagino quanto vai durar esse amor nesse chão chamado terra. Na verdade, até acho isso muito relativo. Não me abala. Mas eu estou preocupado e engajado em fazer dessa experiência de vida uma construção amorosa que, como partitura transparente e transcendente, decididamente, fará de nós uma melodia imortal.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
Todos os textos da Zona Livre estão AQUI.
Foto da Capa: Freepik

