A de amar.
Verbo que insiste em destruir corações
A de amores possíveis, impossíveis ou materialistas.
No cinema, está em cartaz o filme Amores Materialistas, da Celine Song, mesma diretora do Vidas Passadas, que não trata das relações por interesse. Fui ver esse achando que seria uma comédia. Saí da sala triste, quase terra arrasada. Em plena Nova Iorque do século 21, mulheres e homens continuam fazendo business consigo mesmos. Dos homens, elas exigem dinheiro. Faturamento anual acima de 200 mil dólares. Das mulheres, eles exigem beleza e juventude. Com mais de trinta, pode até ser descontinuada como um smartphone.
A de abuso. Se você for mulher e sofrer algum tipo de violência, ligue para o número 180, Central de Atendimento à Mulher, serviço gratuito, de utilidade pública, funcionando 24 horas por dia, todos os dias da semana.
B de basta.
Quando eu era pequena e não queria mais algo ou estava satisfeita, eu dizia ‘deu’. Meus primos cariocas diziam basta. Pensando agora sobre esse ‘deu’, não faço ideia de onde ele veio e que sentido tem.
B de bondade. Palavra pouco dita e pouco escrita.
B de beijo.
B de benquisto. De bomba, inclusive a de chocolate.
E B de boneca.
No Brasil, como em diversos outros países machistas, homens, que se negaram a brincar de papai quando crianças, agora brincam de bonecas com as mulheres.
‘Me dei conta de que mulher também é gente’, um me disse depois de quarenta anos vivendo entre nós.
C de clássico.
Já é um clássico e de mau gosto o desprezo pelas mulheres. Jean-Luc Godard fez um filme com esse nome, invertendo, desonrando os papéis. Desprezo foi um sucesso de bilheteria.
E J.M. Coetzee, autor do Desonra, disse que “clássico é aquilo que sobrevive à pior barbárie, aquilo que sobrevive porque há gerações de pessoas que não podem permitir-se ignorá-lo e, portanto, se agarram a ele a qualquer preço”.
C de concerto escrito com C e não com S. Com C porque gosto de música erudita, ou música de concerto, ou clássica, ou como queiram chamá-la, tal qual o jornalista Roger Lerina escreveu no texto Por que ouvir os clássicos.
C do sobrenome do meu pai, que não assino profissionalmente, que me fez gostar de música alaudista.
E C de cegueira.
O Ensaio sobre a Cegueira, adaptado pelo Grupo Galpão, esteve no palco aqui em Porto Alegre. Cegamente, fiquei sabendo só quando já não havia mais ingressos. Portanto, não vi.
E finalmente D.
D de Deborah.
Deborah Levy, escritora por quem estou profundamente hipnotizada, autora de diversos livros, entre eles o A Posição das Colheres e Outras Intimidades, de quem peguei o formato deste texto por admiração. Talvez por sapiência própria. Talvez por vontade divina. Ou dos deuses e deusas do Olimpo, que me fazem amar as letras e a literatura sobre todas as coisas.
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Foto da Capa: Do filme Amores materialistas / Divulgação

