Eu estou escrevendo esse texto com o prazo estourado para entregar ao editor, mas azar. Meu texto anterior, já pronto, não era nada importante. Apenas mais uma das minhas confabulações poético-psicanalíticas.
Hoje nada mais importa. Só Catarina importa. A jovem de 32 anos brutalmente violentada e morta por um rapaz enquanto fazia a trilha que diariamente tinha como hábito para chegar à sua aula de natação na praia do Matadeiro, em Florianópolis, Santa Catarina.
Santa nenhuma.
Catarina nunca chegou. Nenhuma mulher chega completamente inteira aos seus compromissos, encontros e passeios. Nem inteira nem sozinha. Seja por precisar de ter que pedir uma companhia por temermos os perigos que uma mulher sozinha enfrenta, seja porque estamos sempre acompanhadas dele: o medo.
Eu demorei muito a entender isso, do alto do meu privilégio branco, heterossexual e classe média. Ainda assim, já tive meus pequenos abusos normalizados somente por ser mulher.
Todas já tivemos. Com sorte, apenas do mesmo tipo que o meu. Com azar…
Azar? Não, não se trata de sorte nem azar. Se trata de uma cultura que odeia as mulheres e as diminui historicamente.
Vi um post no Instagram hoje de um desenho que retratava uma pirâmide de homens, sendo que a base, feita do maior número deles, era nomeada de “homens que riem de piadas machistas e não recriminam os amigos”. O último, do topo da pirâmide, era o “homem que mata”. Pode parecer exagero, mas não é. O homem que mata é sustentado por toda essa estrutura que relativiza e faz pouco caso do machismo em sua base, nas falas e atitudes diárias não só de homens, mas também de mulheres.
O vídeo do criminoso à espreita e saindo para seu ataque é de revirar o estômago. Jamais um homem entenderá o medo que uma mulher sente ao caminhar sozinha à noite (e durante o dia). Outro vídeo que circulou ontem foi em uma das homenagens prestadas a Catarina, um texto lido em que a autora diz que uma parte sua morreu junto à jovem: a parte que topa aventuras ou novos caminhos mesmo com medo, a parte destemida e corajosa de todas as mulheres, que sofreu um duro golpe com o assassinato de Catarina.
Pensei em não escrever esse texto por imaginar que outros colegas de plataforma também o fariam e isso seria repetitivo. Mas foi justamente aí que pensei sim! Exatamente por isso eu preciso escrever. Todas as colunas da Sler e de todas as outras plataformas, sites, blogs, podcasts, deveriam estar falando sobre Catarina, sobre os números inacreditáveis de feminicídios e todos os outros tipos de violência contra a mulher que crescem vertiginosamente diante de nossos olhos.
É preciso educação, políticas públicas, mas é preciso consciência. Autorresponsabilização de todos e todas nós. Escrever sobre, falar com os amigos e amigas, com os filhos e filhas, repostar matérias e notícias para que não se tolere mais fechar os olhos e ainda lidar como casos isolados com esse crescente massacre a mulheres em nosso país.
Eu me sinto impotente e revoltada com essa morte, com a vida de uma jovem cheia de sonhos e possibilidades roubada por um criminoso que nunca deve ter recebido nenhum tipo de educação feminista.
Precisamos urgente falar sobre o feminismo, entendê-lo como uma demanda de sobrevivência. Fazer com que as pessoas parem de atacar feministas com ideias preconceituosas e estúpidas de que feministas odeiam homens. São os homens que odeiam as mulheres e as matam e silenciam diária e historicamente.
Nós só queremos viver, ter o direito de ir e vir com autonomia, liberdade e segurança. Só queremos ser ouvidas, reconhecidas, bem pagas.
Eu começo a semana triste. Mas tristeza sozinha não transforma as coisas. Que comece com palavras, mas não fique só nelas.
Catarina, presente.
Todos os textos de Luciane Slomka estão AQUI.
Foto da Capa: Catarina Kasten / Reprodução do Instagram

