Um jornalista jovem (da mesma idade que eu, diga-se de passagem) morreu nesta última semana. Instagram anunciou. Bastante conhecido e atuante. Para alguns do meio, comoção. Para a grande maioria, sem envolvimento, curiosidade. Eu tenho a minha, quase antropológica e quiçá um pouco masoquista, de ver os comentários das pessoas nesse tipo de postagem. Confesso que, envolvida com esse tema que sou desde que me entendo por gente, fiquei e fico sempre curiosa em saber o motivo da morte da pessoa. Aqui, novamente, tal qual escrevi nesse mesmo espaço há algum tempo sobre pessoas exigirem que outras que pediram ajuda para encontrar alguém desaparecido, ao revelar que encontraram, expliquem o que aconteceu, reforço uma ideia parecida: vi críticas severas ao fato de as pessoas estarem perguntando o motivo da morte nos comentários da notícia Ninguém pergunta primeiro quem era. A pergunta vem crua, quase automática: do que morreu?
Antes do nome, antes da idade, antes de qualquer história que pudesse humanizar aquele corpo ausente, queremos a causa. Eu compreendo esse desejo ou quase necessidade que sentimos em saber da morte do outro, que confirma nosso lugar de sobreviventes. Não condeno essa curiosidade porque, além de também padecer dela em algum grau, compreendo o movimento psicológico presente na maioria das pessoas que assim agem. Saber que alguém partiu repentinamente, especialmente quando jovem, lança-nos a um lugar de angústia que incomoda e assusta. Então, conforta saber que houve uma causa, mesmo que estúpida. Melhor ainda se for de um mal que eu sei que não sofro, como se isso garantisse uma sobrevida a quem está do lado de “cá”, lendo a notícia ao invés de ser a notícia. Saber o motivo da morte do outro é uma tentativa ingênua de nos proteger da nossa própria. Se morreu de algo raro, respiramos aliviados. Se foi descuido, juramos mentalmente que jamais cometeríamos o mesmo erro. Se foi violento, atribuímos a um lugar, a uma hora errada, a um azar que não nos pertence. A causa vira um amuleto: enquanto não for comigo, estou seguro.
Mas há também um quê de voyeurismo triste nisso tudo. A morte alheia como manchete, como conversa de elevador, como comentário rápido no café. Em poucos minutos, a vida inteira de alguém se resume a uma frase curta: morreu disso. E pronto.
Raramente perguntamos o que aquela pessoa amava, no que acreditava, se tinha medo de escuro ou se ria alto demais. A morte vira mais interessante que a vida, talvez porque a vida exige escuta, e a morte exige apenas especulação. No caso do jornalista em questão, era uma personalidade importante, com um trabalho também importante. Mas o que gera inquietação é o motivo e, em seguida, o incômodo de pessoas ao verem outras curiosas demais pelo motivo muito mais do que pela pessoa em questão.
No fundo, queremos saber o motivo da morte porque não sabemos lidar com o mistério da vida. A ausência nos incomoda. Precisamos de uma causa, mesmo que ela não console, mesmo que não explique nada. Como se nomear a morte fosse uma forma de domesticá-la, de colocá-la num canto onde possamos fingir que a entendemos. Mas a verdade é que, por mais detalhes que saibamos, a morte continua sendo a mesma: abrupta, injusta, silenciosa.
Quem sabe estejamos tão ocupados pela causa mortis que acabamos esquecendo-nos de ter a mesma curiosidade e inquietude pela causa vitae.
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