Fernando Fuão viu a Av. Borges de Medeiros como se fosse um grande canyon cortando o centro histórico de Porto Alegre em duas metades (confira foto). De fato, essa imagem cada vez faz mais sentido. Como mostrei no artigo Tempo ao Tempo, a metade que vai em direção ao Gasômetro começou a ganhar nova vida a partir do início dos anos 1990. Lentamente passou a ser procurada pelos seus equipamentos culturais, por seus bares e feiras. Até a região tomada pelos quartéis, que era área de segurança nacional e dava medo passar por ali, hoje está animada.

Antes, a agitação do centro não passava de jeito nenhum da Rua Caldas Júnior, a partir dali o ambiente era decadente, meio sinistro. Agora, os apartamentos daqueles quarteirões se valorizaram e são até disputados pelas gerações mais novas. A ponta do Gasômetro, que era uma espécie de fundos da cidade, virou frente.
Já a outra metade, da Borges até a Rodoviária, funciona nos horários comerciais dos dias de semana, como mais um dos centros de interesse comercial da cidade. Passar lá à noite ou fins-de-semana é triste e até assustador. Tudo fechado, sem graça.
Curioso é que em outros tempos a Av. Borges, como é chamada, foi eixo central do
principal polo comercial do centro da cidade. O fluxo de veículos e pessoas que passavam por ali era tão intenso que sua travessia era assunto na imprensa dos anos 1970. A circulação pesada de bondes, ônibus e automóveis atrapalhava o cruzamento dos pedestres.
Por muito pouco não foi feito um viaduto sobre a Rua dos Andradas para que os pedestres passassem por baixo. Felizmente, bons ventos estavam vindo da Curitiba de Jaime Lerner, o bom senso venceu e a avenida foi fechada para o trânsito de veículos. Os dois lados se integraram definitivamente numa zona pedestre de grandes dimensões, os chamados calçadões.
Agências bancárias, que matavam o comércio, foram proibidas de se instalar nos térreos dessas ruas. A ideia que predominava era a da animação. O modelo Curitiba passou a ser o sonho daqui e das grandes cidades brasileiras. Só que as ideias de Lerner, para funcionarem bem, pressupunham a substituição do automóvel pelo transporte público. Vejam só, faz tempo (final dos anos 1970) que esse
assunto está na pauta e pouco evoluiu…
Mas não faltaram projetos nesse sentido. O governo federal incentivava e apoiava através da EBTU (Empresa Brasileira de Transportes Urbanos) a implantação dos corredores de ônibus nas avenidas radiais da cidade, uma espécie de pré-metrô que em Porto Alegre nunca foi levado a termo. O único corredor posto a funcionar de acordo com o projeto original, da Avenida Bento Gonçalves, teve curta duração.
De lá para cá, paramos no tempo. Eu não saberia citar nenhuma novidade importante no sistema de transportes da cidade posterior às linhas circulares e transversais da Carris e às lotações. As linhas fluviais (catamarãs), por exemplo, dormem sono eterno nas gavetas do município. O sucesso da faixas azuis para ônibus e as poucas ciclovias atestam que passa da hora de retomarmos o bom caminho no transporte público. Os corredores de ônibus que vemos por aí nas principais avenidas são o que ficou de um projeto não concluído que previa VLTs ou Ligeirinhos como os de Curitiba, assim como os vários projetos de linhas de metrô subterrâneo que, como uma maldição, nunca saíram do papel. A linha para Novo Hamburgo saiu porque aproveitava as linhas dos antigos trens de carga e passageiros, enquanto o eixo de maior demanda, o da avenida Assis Brasil, nunca foi atendido. O Trensurb, infelizmente, chegou ao Mercado Público pela superfície matando de vez a belíssima Av. Mauá. Economia incompreensível, para não dizer estúpida.
Dependendo do transporte individual, o centro histórico logo entrou em colapso e a doxa que se formou (uma espécie de consenso universal, inclusive midiático) foi a de que era preciso esvaziá-lo. Deu certo. A chegada dos shoppings centers voltados para proprietários de automóveis, a sede de expansão da indústria imobiliária por novos terrenos e a convicção da prefeitura e da mídia fez do abandono do centro um caminho sem volta. O comércio, os serviços e o lazer dos mais abastados buscaram endereços mais propícios para oferecerem conforto aos proprietários de automóveis.
E o centro empobreceu, passou a ser visto como vazio, apesar das milhares de pessoas que nunca o deixaram cotidianamente. Mas eram pobres, menos vistosos e, portanto, desassistidos politicamente. Por que as duas metades são tão diferentes? Há aí uma fatalidade? Penso que não. O que falta é o olhar interessado de quem pode fazer a diferença (planejamento público e investimento privado) que não passe pela ênfase de novas construções, pela liberação da altura dos edifícios. O centro está construído, com muitos prédios vazios. A casa ficou grande, os quartos estão vazios. É hora de replanejar com coragem. Pensar em rearquitetura.
Uma oportunidade ímpar está na integração das Docas do Cais Mauá à metade esvaziada do centro histórico, enterrando o Trensurb e substituindo o Muro da Mauá por outro sistema de proteção contra cheias (confira O perigo do cheque em branco no Cais Mauá). Dá para imaginar o prazer de caminhar da Av. Alberto Bins até a beira d’água e o interesse residencial e comercial (valor) que isso geraria? Isso não pagaria o investimento? Porto Alegre não merece um gesto de grandeza do governo municipal, estadual e federal para remodelar essa área tão vital e estratégica da cidade?