Fiel ao meu ritmo popular e ancestral de que tardo, mas não falho, entrei finalmente no ChatGPT. Claro que o fiz através da poesia. No comando, solicitei o meu poema mais assíduo em recitais, desde as Rodas de Poesia, capitaneadas pelo Mario Pirata, no Bric da Redenção. Trata-se de O poema com todos os vícios, em que faço a brincadeira (hoje incorreta) de que Édipo está fadado a dar com os burros d’água, porque a mãe estaria muito velha, depois da morte do pai.
Comecei achando o Chat um puxa-saco. Chamou o poema de famoso (nunca ouvi ninguém falar dele) e inseriu uma descrição em que o coloca no gênero psicanalítico-filosófico-humorístico. Ok, Chat, entendi que você está tentando ser legal com o meu narcisismo em nossos primeiros encontros. Então, pedi para ele melhorar a versão e foi aí que começou a tragédia do sucesso. A nova versão ficou muito melhor. Evitarei reproduzi-las nesta prosa, não por serem versos, mas para não expor, em coluna pública, a humilhação do poeta.
Havia agora um ritmo expandido, mais metáforas, como no final do texto, onde, ao contrário do “a vida sempre chega depois”, o Chat colocava “a vida, a vida vem tarde”, muito mais melódico e, portanto, com um efeito estético superior. Eu tive um treco. Depois de toda uma vida, eu me vi diante da aposentadoria compulsória como poeta. Mas, por ter tendências otimistas, logo pensei que teria mais tempo para contemplar a vida, sem a necessidade obsessiva permanente de transformá-la em uma arte superior a ela.
Mas doeu. Sentia-me conspurcado, anulado, apartado. Senti um não sei o quê como aquele do poeta e tive medo de perguntar ao Chat o que era. Levei horas para me aliviar, o que aconteceu, como sempre, por meio de algumas histórias que foram chegando. A primeira levou-me ao começo dos anos 70, ainda no então “primário”. Era aniversário da cidade e a professora pediu que fizéssemos uma maquete sobre ela. Dois seriam sorteados para a apresentação, e eu fui um deles.
O colega apresentou um trabalho supimpa. Via-se tudo claramente: a Redenção, a Prefeitura, o Beira-Rio (era um colorado). Quanto ao meu, nada podia ser distinguido, tudo se confundia com tudo, e o então Estádio Olímpico Monumental parecia um ovo frito esparramado na frigideira de papel. Quando eu estava preparado para receber um zero, a professora elogiou o meu trabalho, e não o do colega. Ela entendeu que o dele havia sido feito pelos pais e enfatizou a importância de fazermos sempre do nosso próprio jeito.
Fazermos do nosso próprio jeito, o bordão me acompanha até hoje, na vida, na análise, na literatura, e foi o que pensei agora, comparando o meu trabalho com o do Chat. A segunda história que me consolou foi pensar nas crianças que eu atendo. Uma delas, sempre que faz uma pergunta, antes que a gente possa pensar juntos na resposta, manda eu olhar no Chat. A mais recente foi quantos anos ela teria se fosse hoje que Saturno começasse a dar voltas sobre o Sol.
Convenhamos que se trata de uma criança inteligente, mas como poderá se desenvolver melhor sem a falta nem o tempo para pensar, espremidos por respostas prontas, rápidas, aniquiladores de um trabalho da mente? Dez para a minha própria análise com ela, zero para o ChatGPT. Depois, pedi uma versão mais engraçada para o meu poema com todos os vícios, este que costuma arrancar risos da plateia, no final. Salvo falhas no comando de minha pergunta, a versão nova passou longe do humor original.
Diante disso, decidi não me aposentar como poeta, mas a luta ainda não está vencida. Se olharmos as fotos que o editor escolheu para ilustrar a coluna, veremos que o Chat encontrou a minha verdade interior quando estou fazendo ginástica. Quanto à imagem original, é evidente que ela mente: contida, recatada, artificial.
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Foto da Capa: Montagem com IA.

