Um dia antes de sua morte (em 10/12/1977), causada por um devastador câncer no ovário, ela levantou-se da cama e, lívida e exaurida, caminhou em direção à porta do quarto, quando a enfermeira a impediu de sair: “Você matou meu personagem!”, disse. Ela se tornara personagem de si mesma, no interior de uma vida/obra que guarda um profundo dilaceramento interior, a agonística do ser selvagem e não domesticável que ela queria ser e a “esposa e mãe com uma vida feliz” que lhe puxava para o outro lado, e que as duas principais personagens de “Perto do coração selvagem” definem com precisão. A biografia de Clarice Lispector por Benjamin Moser é um livro para fortes, para pessoas fortes, tal o grau de profundidade que uma vida, a de Clarice, pode atingir na relação entre literatura e dor.
Nascida numa pequena cidade da Ucrânia (hoje pertencente à Bielorrússia), região de constantes conflitos étnicos e territoriais, sua mãe fora violentada e contraíra sífilis; seu pai, um culto leitor da Torá, nunca pôde desenvolver seus talentos intelectuais e ela, Clarice, amargou toda a vida o fato de não ter podido “salvá-los”: a mãe, da doença que a matou aos 42 anos, e o pai, que via sua própria vida como um retumbante fracasso. É uma vida conduzida com as típicas preocupações do espírito e da mística judaica: a busca pela “coisa” anterior à palavra que a designa; perseguindo o nome que não pode ser pronunciado sem profaná-lo (Deus); a escrita como única forma de salvação de si e dos outros (que ela não conseguiu salvar!); a loucura e sua linguagem como norma do “outro humano” e, finalmente, a aceitação do princípio spinoziano de que “Deus é natureza”: Ele não “está” na Natureza, Ele “é” Natureza! É por isso que a barata de “A paixão segundo G.H.”, metade fora do armário (no mundo) e metade na escuridão de dentro, pode ser comida: o pus branco que sai dela é da mesma “natureza” que o “pus branco” que saía do seio de sua mãe e que a alimentara! Voltar a esta condição animal – não há nela nenhuma busca “humanista” – a fazia afirmar algo como “Eu entendo perfeitamente uma galinha!”.
Uma separação dificílima de seu marido diplomata, um filho esquizofrênico, a perda da beleza física, a paixão impossível por Lúcio Cardozo, o incêndio de seu apartamento no Leme que quase a matou, o vício em soníferos e cigarros e… uma obra literária das mais profundas, enigmáticas e inquietantes do século XX. Em sua lápide (Cemitério Israelita do Caju) está seu nome oculto: Chaya. Na morte, ela encontrou o que queria: o seu nome antes de seu nome.
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Foto da Capa: Arte sobre imagem original de Wikipedia Commons

