Quantas pessoas podem dizer que passaram 2025 sentindo o conforto que só um chinelo de dedo pode garantir? Acho que a maioria passou o ano como o André Victor Correia, que, lá nas antiguidades dos anos 30/40 do século passado, no Rio de Janeiro, lembrou que precisava de um sapato novo já no dia do baile.
Por aqui, só não lembrou de comprar – com antecedência – um chinelo novo para o Réveillon quem não viu o comercial estrelado pela oscarizada Fernanda Torres.
O anúncio brinca com o velho ditado de começar as coisas com o pé direito. Fernanda sugere que ninguém entre o ano com o pé direito, mas com os dois pés na porta, na estrada, com os dois pés onde mais lhe convenha e faça feliz…
Pois não é que os direitistas, tão pretenciosos quanto atrasados, entenderam que a agência de propaganda perdeu tempo criando um anúncio dirigido a eles e se puseram a jogar sandálias no lixo e pedir boicote à marca?? Acabaram cobrindo a cabeça – e as enormes orelhas – com o chapéu jogado ao ar pelos publicitários…
Resultado: o preço das ações da fabricante do chinelo, que tinha caído num primeiro momento, voltou a subir no rastro do pretenso boicote direitista, cujo grande resultado foi a formação de filas enormes nas lojas que vendem Havaianas…
Eu até acho que os marqueteiros da fábrica já estão criando uma nova campanha com outro conselho:
Com havaianas nos dois pés, você não corre risco de ficar com os quatro no chão…
De volta ao André e aos bailes.
Apressado, André só achou o mocassim que tanto buscava na loja do Salim, ali pela vizinhança da Rua da Alfândega, onde se instalavam, desde o final do século 19, imigrantes – principalmente árabes – que chegavam ao Rio. Desde os anos 1960, chamam o comércio ali de Saara, sigla da Sociedade Amigos e Adjacências da Rua da Alfândega.
Experimentado, o sapato apertou os dedos do André. Mas o Salim o convenceu a levar. Afinal, o freguês precisava de um sapato novo para o baile daquela noite.
André levou o pisante. E passou o baile todo como a maioria dos brasileiros passou 2025: dançando e com os calos doendo, apertados e até maldizendo o Salim… Nós temos tantos salins a culpar que não dá para citar…
Charmoso, de sapato novo, o cara não perdeu uma música. Todas as moças queriam dançar com ele…
No nosso baile de 2025, ao contrário, muita gente preferia não ter ouvido algumas músicas. Em outras, aproveitamos para aplaudir quem dançava. Por exemplo, na marchinha do ex-capitão e dos generais evoluindo em direção à cadeia…
Também teria sido melhor o nosso baile sem o desafinado e torturante coro entoado por tantos feminicidas e agressores de mulheres que só queriam participar da festa da vida…
Mas enquanto eles entoam essa marcha fúnebre, muitas mulheres promovem verdadeiras serenatas que nos aliviam as dores do aperto e deliciam nossos ouvidos.
Cito duas delas. Mariangela Hungria, pesquisadora da Embrapa/Soja, que ganhou o Prêmio Mundial da Alimentação (World Food Prize), considerado o Nobel da Agricultura.
E Tatiana Sampaio, professora doutora, líder de uma equipe de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro que, depois de 25 anos de pesquisas, criou um medicamento que devolve movimentos a tetraplégicos: a polilaminina, a partir de proteínas de placentas.
Para abafar a desafinada – e desatinada – charanga do pessoal que passou 2025 com os quatro pés no chão, temos o samba exaltação da ciência nacional: no ano passado, tivemos 17 cientistas entre os mais citados em artigos científicos no mundo, segundo a Clarivate, empresa americana que oferece serviços voltados à análise de pesquisas acadêmicas e científicas.
Um destaque nessa sinfonia é Luciano Moreira. Agrônomo e entomologista, Luciano integra a equipe de cientistas que faz funcionar, em Curitiba, uma fábrica de mosquitos. Mas são mosquitos do bem. Inoculados com a bactéria Wolbachia, os bichinhos ajudam a combater as doenças transmitidas por seus congêneres Aedes Aegypti.
Em Belém (não onde nasceu Jesus, como teria dito o Claudiomiro), terra de Fafá, esquecemos todos os calos e dançamos, com os pés (os dois) descalços na terra, a animada ciranda da COP 30, a de maior participação popular de todas as Cops…
Ah! E quando o carnaval chegar, muita gente vai andar por aí a entoar o refrão:
Malandro, vai por mim,
não devo mais pro Salim ali da venda
não pago mais o imposto de renda
Mas o que o André Victor Correia tem a ver com isso tudo? Pois é, no dia seguinte ao baile, ele, saxofonista e clarinetista, para aliviar a dor do calo no mindinho, compôs o chorinho André de Sapato Novo, lançado em 1947 (dá pra ouvir aqui) com Pixinguinha e Benedito Lacerda.
André não fez letra. Mas em alguns sites por aí tem quem se arrisque em algumas estrofes. Como essas aqui, que achei no Blog DNI publicadas em 2021.
André com um calo de pé num dedo mindim
Passou a noite com dor maldizendo Salim
Dor que não foi em vão, pois, ao cabo e ao fim
A inspiração pra compor este lindo chorim.
Pois é… Neste 2026, o baile é nosso, é seu… Este ano, vamos aliviar o aperto nos calos, de sandálias, pés descalços ou sapato novo.
Lembra aquela história de dançar conforme a música? Este ano, nós é que tocamos para os poderosos dançarem, pro bem e pro mal… Para quem pisou nos nossos dedos em 2025, vamos oferecer bastante sofrência. Para quem nos aplaudiu no salão da vida, vamos de samba-exaltação. Este ano tem eleição: a apoteose do povo.
Ah! E o pessoal que não gostou do comercial pode pular as sete ondas no mar com o pé direito. É só ter cuidado para não cair de quatro…
Que passemos, todos, 2026 inteiro com os pés firmes no chão numa jornada que nos leve a 2027 e adiante com ainda mais felicidade.
Todos os textos de Fernando Guedes estão AQUI.
Foto da Capa: Freepik

