Houve um tempo em que, nos cafundós desse país, a emergência da loucura não era rechaçada em manicômios, e nem quimicamente emudecida por drogas. Nesse tempo, muitas cidades, vilas e vilarejos tinham seus “doidos de estimação”, personagens à margem do tecido social “normal”, mas que nem por isso eram rechaçados, agredidos, segregados, trucidados. Tais personagens preservavam alguma respeitabilidade e acolhimento, como pessoas sagradas em ajuntamentos humanos primitivos. Assim se passava com Chiquinha, a doida de estimação da cidadezinha do agreste pernambucano, na década de 50 do século passado.
Chiquinha era doida de pedra: vivia na periferia do vilarejo perdido nas brenhas, não dizia coisa com coisa, e se mantinha através da mendicância e da generosidade dos demais membros do pequeno burgo. Ela era mantida à distância, nas franjas do vilarejo, sem acesso às missas, festejos, eventos em que as pessoas se encontravam; nesse espaço periférico, contudo, ela era tolerada, e mesmo respeitada: nunca ocorreu a ninguém imolá-la pelo fogo enquanto dormia, nas noites e madrugadas frias, no relento das mangueiras e jaqueiras dos espaços públicos. As mulheres-da-vida da localidade, outras personagens toleradas, se revezavam para renovar os molambos de Chiquinha, fornecer uma água de cheiro, catar alguns piolhos, dirigir-lhe um gracejo, uma pilhéria, um sorriso cúmplice entre gauches sociais.
Chiquinha não era natural da localidade pernambucana para onde migrou, em certo momento de sua movimentada vida. Chegou a esta localidade do nada, com uma trouxinha como bagagem, vinda, segundo relatos balbuciados, do interior da Paraíba. Ela se tornou especialmente querida por conta do seu apreço pelos cães sem dono que igualmente perambulavam pelas ruas, e lhe faziam companhia. Ela lhes dava nomes e, sobretudo, tinha o cuidado generoso de compartilhar o pouco que obtinha para comer, para alimentar cachorros e gatos de rua. Mas estes não eram os únicos bichos xodós de Chiquinha: ela tinha imensa consideração e cuidado com as galinhas e pintos, que ciscavam livres e soltos pelas ruas, quintais e praças. Não passava pela cabeça de nenhum morador se apossar dessas galinhas e pintos, pois todos sabiam que cada um tinha dono. Chiquinha, contudo, se preocupava em mantê-los alimentados, e pra eles reservava também nacos de pão, restos de xerém e espigas de milho refugadas. Chiquinha era, portanto, um São Francisco, ou mais precisamente, Santa Francisca em molambos, padroeira dos bichos soltos a perambular livremente pela cidade.
Ainda está por ser escrita uma história psicossocial da mudança de atitude com os doidos de estimação nos ajuntamentos urbanos brasileiros. Eles perderam integralmente qualquer traço de sacralidade, foram reduzidos a “débeis mentais”, criaturas lombrosianas cujos traços negróides denunciavam e prenunciavam a debacle racial que esperava o sofrido povo brasileiro, caso ninguém tomasse uma atitude. Da liberdade dos terreiros e quintais, passaram aos calabouços dos manicômios, hospitais de alienados, instituições de “higiene” psicossocial. Perdeu-se a tolerância e generosidade social, que acolhia esses doidos e doidas em silêncio tranquilo e não os temia: eles eram “inocentes”, incapazes de fazer mal. Uma vez perdida essa postura, regrediu-se à barbárie do nojo, da crispação, do banimento, dos episódios execráveis nas colunas policiais de jornais, em anúncio de mais um caso de assassinato de “doente mental morador de rua”.
Chiquinha, felizmente, viveu num tempo em que ainda havia esse espaço de acolhimento que depois haveria de sumir. Não se sabe de onde se tirou essa informação, mas o fato é que seu vilarejo adotivo consagrou a narrativa segundo a qual ela havia sido uma moça bonita e ajuizada, que se apaixonou por um rapaz de seu burgo paraibano de origem, amor que lhe foi roubado por sua melhor amiga, tendo ela e ele sumido na curva do vento para nunca mais dar notícia, restando a Chiquina uma dor tão imensa que lhe teria roubado a razão. Chiquinha, comentava-se, havia enlouquecido de dor pelos chifres de corna. Seja como for, ela conquistou seu lugar no imaginário da cidade que a acolheu, a ponto de figurar nos relatos historiográficos de respeitado intelectual local, Newton Thaumaturgo, que lhe dedicou o capítulo XXVII de sua “História do Brejo da Madre de Deus – 1724-2003”, capítulo com o título “Chiquinha, a pedinte”. O renome de Chiquinha aumentou no dia em que alguém percebeu que os jornais que ela catava para usar à guisa de coberta em seu dormitório com teto de estrelas eram percorridos e lidos. Muitas das mulheres da localidade, inclusive algumas proprietárias das galinhas, patos, marrecos e perus, eram iletradas e passaram a se valer da habilidade de Chiquinha para escrever cartas para parentes que haviam zarpado para o sul. A efígie de Chiquinha foi enriquecida com a informação de que não apenas havia sido uma moça bonita cujo coração (e saúde mental) foram espezinhados por um cabra safado, mas teria igualmente sido “professora primária” na escola de sua cidade…
Desafiada um dia a ensinar as primeiras letras para uma das mulheres donas de galinheiro da cidadezinha, Chiquinha consentiu que iria pensar no caso, tão logo concluísse missão pedagógica com algumas das mulheres da vida cujo letramento havia assumido. Chiquinha – freireana avant la lettre…
Essa foi a doida de estimação do Brejo da Madre de Deus, agreste pernambucano, num tempo que haveria de ceder à barbárie higienizada por médicos psiquiatras e psicólogos, arautos da modernidade com esgares de cientistas.
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Foto da Capa: Núcleo Histórico de Brejo da Madre de Deus

