Volto mais uma vez ao mesmo tema. Sei que corro o risco de soar repetitiva, mas há assuntos que não podem se esgotar. Ainda mais nesta semana, em que se completam 61 anos do início de um período cruel da nossa história e, pela primeira vez, militares se tornam réus — desta vez, por uma nova tentativa de golpe.
Refiro-me a 1964 e a todas as atrocidades trazidas por um movimento que seus algozes insistem em chamar de revolução. A chamada “Revolução de 64” nada mais foi do que um golpe de Estado que derrubou um presidente civil comprometido com os interesses do povo, destruindo a democracia vigente até então. O que se seguiu foi um regime de censura, tortura, desaparecimentos forçados e medo.
As marcas desse período ainda ressoam na sociedade brasileira — seja na impunidade dos que cometeram crimes contra a humanidade, seja na forma como a memória histórica é distorcida para servir a interesses políticos. Ainda hoje, há quem tente reescrever os fatos, minimizar a repressão e justificar o injustificável. Mas a história persiste. Ela ressurge nos relatos dos sobreviventes, nos arquivos antes ocultos, nos testemunhos que teimam em existir, mesmo diante da negação. Agora, com militares sendo levados ao banco dos réus por uma nova tentativa de golpe, o passado se entrelaça perigosamente com o presente, nos lembrando de que a democracia não é um estado permanente, mas uma construção frágil que exige vigilância constante.
Falar sobre 1964 não é apenas um exercício de memória. É um compromisso com a verdade, com a justiça e com o futuro. Porque silenciar sobre o passado é permitir que ele se repita.
Dentro desse contexto, a literatura se torna uma ferramenta essencial de resistência. É nesse papel que se insere “Já não somos os mesmos”, da autora gaúcha Maya Falks, publicado em 2022 pela Editora Penalux. A protagonista dessa intensa novela carrega no corpo e na alma as cicatrizes de um tempo de horror. Sobreviver à violência extrema das masmorras da ditadura não é apenas um teste de resistência física, mas um mergulho forçado no abismo da desumanização. Como continuar existindo depois de ter sido despida de tudo — do próprio corpo, da identidade, das certezas que um dia sustentaram sua juventude?
Maya Falks nos conduz por esse labirinto de dor e memória com uma escrita que não poupa nem suaviza. A escolha da escrita poética como estrutura narrativa intensifica a brutalidade dos fatos sem torná-los insuportáveis, permitindo que o leitor respire entre os versos, mas sem jamais esquecer o peso do que está sendo contado. Assim como a protagonista tenta reorganizar seus fragmentos internos, a própria linguagem da novela reflete esse processo de reconstrução — de quem foi destroçada pelo regime e, ainda assim, insiste em deixar um testemunho.
Os algozes podem tentar reescrever a história, minimizar a tortura, justificar a barbárie, mas a literatura permanece como um ato de resistência. Ao ecoar os gritos silenciados, Já não somos os mesmos reafirma que lembrar é uma necessidade política, um enfrentamento contra a amnésia conveniente que permite que os fantasmas da ditadura sigam rondando o presente.
Se Belchior cantava que “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”, Maya Falks nos mostra que, depois de encarar o horror, ninguém jamais será o mesmo. É por isso que a história não deve se repetir. É por isso que não podemos permitir que nenhum novo golpe recaia sobre nós, ameaçando a frágil democracia que só foi possível à custa de tanta luta e tanto sangue derramado.
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Foto da Capa: Ilustração da capa do livro Já não somos os mesmos", de Maya Falks.