Enquanto Dan Brown se dedicava à pesquisa e escrita de The secret of secrets, entristecido pela perda da mãe em junho de 2017, nasceu Wild Symphony (Sinfonia selvagem), em 2020. A seleção de músicas inspiradas em diversos animais compõe um livro para crianças – as de fato e as que nos habitam eternamente, se permitirmos. A regência é do Maestro Mouse, que usa uma simpática gravatinha borboleta – o rato na manga, cobaia-mor nos laboratórios científicos, com DNA tão semelhante ao nosso, mas também personagem lúdico de tantas histórias infantis. Dan falou aos seus “queridos leitores” que a música é uma espécie de narrativa e os movimentos de orquestra em Sinfonia selvagem, os poemas e as ilustrações “trabalham em conjunto (como um código!) para contar uma história e revelar algo engraçado ou interessante sobre a personalidade de cada animal.”
Podemos ler o livro ouvindo as composições originais de Dan Brown por meio de um aplicativo interativo, gratuito para smartphone, que usa realidade aumentada para tocar as músicas. É uma obra que vem se desdobrando em eventos mundo afora. Dan doou os royalties nos EUA para apoiar a educação musical de crianças em diversos países, por meio da fundação beneficente de New Hampshire. As orquestras jovens se apresentam em eventos que foram se tornando cada vez mais criativos e disputados. Usualmente é o próprio Dan Brown quem faz as apresentações, mas, no último dia oito de outubro, a narração foi do estrelado ator Viggo Mortensen. A Sistem New Brunswick Children’s Orchestra e Sistem Toronto apresentaram, com 145 músicos, a Wild Symphony com projeções visuais e momentos interativos. A agenda já tem eventos marcados até junho de 2026, no Canadá, EUA, Singapura, Bulgária, Lituânia, Itália, Bélgica e Alemanha.
Encontrei o Maestro Mouse ao me ater à data de lançamento de O segredo final e seus três noves: 09.09.2025 (2+0+2+5 = 9). Comecei a navegar no computador pelo número 9 e aconteceu o seguinte: reapareceu no meu bairro o homem alto e magro, de barba grisalha, que passou longo período caminhando pelas ruas silenciosas de paralelepípedo com um caderno nas mãos, onde rabiscava uma cruz nas folhas e ia largando por meio dos portões das casas. Eu o chamava de O Andarilho. Caminhava sempre devagar, sereno, sem olhar para ninguém; às vezes sentava para descansar debaixo de uma árvore das verdes praças. Não falava, nem ria. Depois sumiu e, então, reapareceu, para, poucos dias depois, sumir novamente.
Eu estava em minha caminhada diária e vi um caderno desbeiçado jogado na grama, na esquina da minha rua, com um desenho voltado para cima em uma folha com um pedaço rasgado. Tive certeza de que era do Andarilho, até porque o vira algumas horas antes rabiscando em um caderno, ao passar por ele quando voltava de carro do supermercado para casa. Na caminhada, ao ver o caderno, pensei em pegá-lo, mas não peguei. No outro dia, logo cedo no computador, continuando minha navegação pelo número 9, tive certeza de que devia buscá-lo. Saí imediatamente, torcendo que ainda estivesse lá no chão. Estava. É um caderno para colorir do Labubu e tem apenas essa folha do desenho: retângulos verticais com 9 números 9, escritos numa sequência.
O Labubu faz parte da série de brinquedos The Monsters, do artista Kasing Lung, inspirada na mitologia nórdica e em contos europeus – o personagem tem orelhas pontudas, olhos grandes com uma sobrancelha franzida e sorriso bizarro, exibindo exatamente 9 dentes. Ganhou fama internacional após a Pop Mart lançar os bonecos com cara de vinil e corpo de pelúcia. Neste mesmo dia, fui comprar tinta para a impressora e, ao entrar na loja ProTech, dou de cara com três Labubus em cima do balcão central. Comprei, sem nem piscar, um marrom – o boneco é fabricado em diversas cores. Cheguei em casa e desenhei na sua testa a palavra hebraica אמת (emét, Verdade) e o aboletei ao lado do meu computador.

Então, instantaneamente, “ouvi” a Sinfonia n. 9, de Beethoven, concebida para apresentação com coral entoando Ode à alegria.
Ó, amigos, chega desses sons!
Vamos cantar mais canções alegres,
Mais canções cheias de alegria!
Alegria!
Alegria!
Alegria, centelha brilhante da divindade,
Filha do Elysium,
Inspirados pelo fogo, pisamos
Dentro do teu santuário.
Teu poder mágico reúne
Tudo o que o costume dividiu,
Todos os homens se tornam irmãos,
Sob o balanço de tuas asas gentis.
(…)
A letra é do filósofo, poeta, historiador e médico alemão, Friedrich Schiller, e expressa uma visão idealista da raça humana como irmandade, ideia que Beethoven também acalentava. Foi a última sinfonia completa de Beethoven. A estreia em Viena, em 1824, com uma apresentação pouco ensaiada, levou o público ao êxtase. Há 12 anos Beethoven não subia ao palco. É dito que, ao final, ele seguiu regendo, ao que um dos solistas o interrompeu e o virou para o público. As pessoas sabiam da saúde fragilizada e perda auditiva de Beethoven e, então, passaram a jogar seus chapéus e cachecóis para o alto em meio aos aplausos, para que ele pudesse ver a emoção que os dominava.
Ouvindo já no computador essa sinfonia única de Beethoven, continuei navegando pelo 9 e cheguei ao Maestro Mouse e sua igualmente alegre Wild Symphony.
Por que conto essa história? Por que remete ao estudo de Dan Brown para escrever O segredo final: a ciência noética. Na abertura do livro, ele dá o tom com a citação de Nikola Tesla, físico, engenheiro eletromecânico e genial inventor multidisciplinar: “No dia em que começar a estudar os fenômenos não físicos, a ciência avançará mais em uma década do que em todos os séculos anteriores”. Aliás, se o sistema tivesse dado chance a Tesla, no final do século XIX, de desenvolver seu modelo de fornecimento de energia elétrica por meio de corrente alternada, obtida por ondas eletromagnéticas, sem uso de fios e gratuita para todos, entre outras tecnologias igualmente revolucionárias, hoje provavelmente as emissões de CO2 seriam ínfimas e não amargaríamos essa tragédia climática.
Todos os textos de Vera Moreira estão AQUI.
Foto da Capa: Seattle Symphony Wild Symphony Concert

