O correspondente sênior de artes para a emissora PBS NewsHour, Jeffrey Brown, entrevistou Dan Brown sobre The secret of secrets, no dia 09.09, em sua casa. Fica em New Hampshire, o quinto menor estado americano em área, que faz divisa com o Canadá ao norte e o oceano Atlântico a leste. Foi mostrando como os segredos e códigos explorados nos livros fazem parte da vida do autor, assim como o piano.
Dan, junto com seu belo cachorro Winston, levou Jeffrey para um passeio no bosque que se estende da sua casa, onde se adentra por um portal de madeira com uma inscrição no topo: lasciate ogni tensione, voi ch’intrate (deixa toda tensão, tu que entras). Ele revelou que “escreve” dali, frequentemente, caminhando pelo labirinto verde com um dictaphone. No seu bosque, há um grande Inuksuk, estrutura erguida com pedras, típica dos Inuit, indígenas que habitam as regiões árticas do Canadá, Alasca e Groenlândia, que desempenha funções como guiar viajantes, alertar sobre perigos e marcar locais de reverência. A palavra em inuktitut: inuk (pessoa) e suk (substituto), daí sua forma buscar a representação de um humano.
Dan revelou que começa a escrever seus livros pelo fim, que vai montando a história de acordo com o que quer para o final. Não é de admirar que o personagem central no desfecho de O segredo final seja de uma riqueza extraordinária. É o Golem, que Dan criou ilustrando a mitologia medieval judaica com elementos de androginia, epilepsia e transtorno dissociativo de identidade. É de se apaixonar.
O Golem teve narrativa famosa com Judah Loew ben Bezalel, rabino de Praga, do final do século XVI. Uma alma guardiã posta dentro do corpo de um monstro de barro. Dan informa, no livro, que a criatura teria nascido na histórica sinagoga Velha-Nova, no bairro de Josefov, antigo gueto murado de Praga, a mais antiga sinagoga em atividade na Europa. “Um oásis espiritual num deserto materialista, a austera fachada de pedra da sinagoga ladeada de perto pelas fachadas das lojas da Hermès, da Montblanc e da Valentino. O mundo moderno havia invadido cada canto daquele antigo gueto, engolindo suas moradias escuras até não sobrar quase nenhum resquício das perigosas ruas outrora patrulhadas pelo Golem”, descreve. O rabino Loew era conhecedor erudito do misticismo judaico e do livro sagrado Talmude. Matemático, astrônomo, filósofo e cabalista, deixara muitos escritos, entre eles um texto importante chamado Gur Aryeh al HaTorah (ele explica, expande e, às vezes, questiona suas interpretações; a obra é considerada fundamental para a compreensão do pensamento do Maharal).
Dan apresenta: “O Golem tinha lido em silêncio o texto do rabino, comprado numa loja de presentes vizinha à sinagoga. Ficou pasmo ao se encontrar em cada página… a Verdade, como ele já a compreendia! ‘Guf, nefesh, sechel. A realidade tem muitos níveis. Yesodot, taarovot, tarkovot. Uma alma pode se fundir com outra para formar uma nova entidade. Gilgul neshamot. Algumas renascem várias vezes’. Nessa fatídica noite, estudando o ciclo das almas, o Golem teve a súbita compreensão de que, assim como o Golem original, tinha se materializado nesse plano com clareza e sem preâmbulo.”
Seria um crime dar muitos spoilers das cenas que Dan criou para o Golem, a cada detalhe revelado nos maravilhando. Assim, vamos ver só alguns aspectos do mito abordados ao longo dos tempos. Diz-se que os golems poderiam ser ativados por uma experiência de êxtase, induzida por um ritual de uso de letras do alfabeto hebraico, formando um shem (qualquer um dos nomes de Deus), em que o shem era escrito em um pedaço de papel e inserido na boca ou na testa do golem. Em alguns contos (como os dos golems de Chełm e Praga), a palavra hebraica אמת (emét, Verdade) é inscrita na sua testa. É composta pelas letras א (Alef), a primeira do alfabeto hebraico; מ (Mem), a letra do meio; e ת (Tav), a última letra. Removendo-se a primeira letra, a inscrição muda de “verdade” para “morte” (מת, mét). Essa composição simboliza que a verdade é completa, abrangendo tudo, do início ao fim.
O crítico de arte e escritor Jacob Klintowitz conta que Isaac Bashevis Singer (1902 – 1991) se tornou uma das vozes mais belas do judaísmo com O Golem. Nas frases finais de seu texto, Singer nos diz que, uma vez retirado o nome sagrado de Deus escrito na testa do Golem, o que possibilitou a sua breve vida sem alma, e que, segundo o mito, retira dele o élan vital e o devolve ao barro, ele pode renascer. “Outros acreditavam que o Golem estava esperando por ela na escuridão, e a levara com ele para um lugar onde espíritos enamorados se encontravam. Quem pode saber? Talvez o amor tenha mais poder do que um Sagrado Nome. O amor, uma vez gravado no coração, nunca pode ser apagado. Vive para sempre.”
Ao costurar as simbologias do Golem e da poderosa coroa de raios suspensa a uns 100 metros do porto de Nova York (já identificou?), Dan Brown faz um inspirado movimento circular no final do livro. É uma mensagem linda, de esperança ativa, afinada com a Sinfonia n.º 9 de Beethoven.
(…)
Quem criou
Uma amizade duradoura,
Ou ganhou
Uma esposa verdadeira e amorosa,
Todos que podem chamar pelo menos uma alma de sua,
Junte-se à nossa canção de louvor;
Mas aqueles que não podem devem rastejar em lágrimas
Para longe do nosso círculo.
Todas as criaturas bebem de alegria
No peito da natureza.
Justos e injustos
Igualmente provam de seu presente;
Ela nos deu beijos e o fruto da videira,
Um amigo testado até o fim.
Até o verme pode sentir contentamento,
E o querubim está diante de Deus!
Alegremente, como os corpos celestes
Que Ele enviou em seus cursos
Através do esplendor do firmamento;
Assim, irmãos, vocês devem correr sua corrida,
Como um herói indo para a vitória!
Vocês, milhões, eu os abraço.
Este beijo é para o mundo inteiro!
Irmãos, acima do céu estrelado, deve habitar um pai amoroso.
Vocês se prostram em adoração, milhões?
Mundo, você conhece o seu criador?
Busquem-no nos céus;
acima das estrelas ele deve habitar.
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Foto da Capa: Inuksuk / Reprodução PBS NewsHour

