A cultura ocidental por séculos esteve voltada a confiar exclusivamente na mente racional. No final do século XVIII, a neurofisiologia, com pesquisas sobre a eletricidade e os nervos, descobriu que os neurônios funcionam por meio de impulsos elétricos, não por água como se pensava, e impulsionou a neurociência. No século XIX, este novo campo de estudo firmou os fundamentos da neuroanatomia celular, com a descoberta de que o sistema nervoso é formado por células independentes chamadas neurônios. A neurociência passou a apontar que todos os aspectos da consciência se devem exclusivamente às interações dos neurônios no cérebro. Mas hoje já está comprovado que este fisicalismo (o conceito de que tudo é físico e pode ser explicado pela física) é incompleto.
Na cultura oriental, sempre houve grande disposição para acolher e contemplar fenômenos da consciência além do corpo físico, tanto no espaço quanto no tempo. Agora, o Ocidente (re)abriu a investigação da natureza, origem e capacidades da consciência – a rigor, essa investigação começou com a filosofia hermética primitiva, sendo os elos entre a ciência moderna e o misticismo antigo muito mais evidentes do que se costuma admitir. “A chave para nosso futuro científico está escondida em nosso passado”, disse Peter Solomon a Katherine, no livro O Símbolo perdido (da obra de Dan Brown, objeto desta série), enquanto mostrava à irmã, na vasta biblioteca da família, livros de autoria de Ptolomeu, Pitágoras e Hermes Trismegisto, assim como o Caibalion, o Bhagavad Gita, as escrituras védicas sagradas dos hindus e o Zohar. Ele a fez ver que a teoria do entrelaçamento, por exemplo, já estava no cerne do Dharmakaya, do Tao e do Brâman, ou que a teoria das supercordas já tinha sido descrita, no século XIII, no texto fundamental do misticismo judaico primitivo, outrora considerado tão poderoso a ponto de ser reservado apenas para os rabinos mais eruditos.
Todo o conhecimento antigo foi estudado por cientistas como Isaac Newton, Max Planck, Werner Heisenberg, Erwin Schrödinger, Maria Curie, Niels Bohr, Albert Einstein e muitos outros. Agora chegou o tempo de desamarrar definitivamente as âncoras do fisicalismo/materialismo e navegar além, incorporando a experiência humana à ciência. Este tem sido o campo de exploração do físico brasileiro Marcelo Gleiser, que incita a criar uma nova cultura científica para nos ver tanto como expressão da natureza quanto fonte de autocompreensão da natureza, de forma que “a humanidade possa florescer no novo milênio”. Com o astrofísico Adam Frank (que também é budista) e o filósofo Evan Thompson, ambos norte-americanos, escreveu o livro The Blind Spot: Why Science Cannot Ignore Human Experience (O Ponto Cego: por que a ciência não pode ignorar a experiência humana), lançado nos EUA (The MIT Press, 2024) e no Brasil (Editora Record, 2025). “Desde o início do Iluminismo, a humanidade tem recorrido à ciência para nos dizer quem somos, de onde viemos e para onde vamos, mas ficamos presos à ideia de que podemos conhecer o universo de fora de nossa posição nele. Quando tentamos compreender a realidade apenas por meio de coisas físicas externas imaginadas a partir dessa posição externa, perdemos de vista a necessidade da experiência”. Este é o Ponto Cego, que os autores mostram estar por trás de nossos enigmas científicos sobre o tempo e a origem do universo, a física quântica, a vida, a consciência, a mente, a Inteligência Artificial e a Terra como um sistema planetário. Os autores propõem uma visão alternativa: o conhecimento científico é uma narrativa autocorretiva, feita a partir do mundo e de nossa experiência dele, evoluindo juntos. “Enxergar” o Ponto Cego é despertar da ilusão do conhecimento absoluto e ver como a realidade e a experiência se entrelaçam.
O livro se desdobra na fascinante série The Blind Spot Podcast, que está sendo apresentada pelo canal do YouTube de Marcelo Gleiser, com legendas em português. Desde outubro do ano passado, Gleiser também investiga a consciência em think tanks na sua The Island of Knowledge, na Toscana, Itália. Pequenos grupos de cientistas, humanistas, indígenas, artistas e intelectuais de projeção internacional trocam saberes e sinergia sobre temas como The many kinds of intelligence: animal, human, plant, extraterrestrial, machine, planetary, emotional (Os vários tipos de inteligência: animal, humana, vegetal, extraterrestre, máquina, planetária, emocional).
No celebrado artigo The hard problem of consciousness (O problema difícil da consciência), de 1995, o filósofo australiano David Chalmers propôs explorar a origem e os mecanismos dos qualia (a experiência subjetiva ou fenomenológica). “Diferente dos ‘problemas fáceis’ da consciência, como a percepção ou a memória, o ‘problema difícil’ busca entender a origem da sensação interna de vivenciar algo, como a experiência de ver a cor vermelha, que não pode ser completamente explicada apenas por processos físicos do cérebro.” Ele defende uma abordagem que chama de “panprotopsiquismo”, sugerindo que todas as coisas têm propriedades conscientes elementares e que essas propriedades conscientes se combinam para formar a consciência humana.
Outro artigo importante, publicado na revista Frontiers in Psychology, 2022, What if consciousness is not an emergent property of the brain? Observational and empirical challenges to materialist models (E se a consciência não for uma propriedade emergente do cérebro? Desafios observacionais e empíricos aos modelos materialistas), apresenta fenômenos relacionados a uma consciência “não local”. Relatos de indivíduos, percebendo informações de locais distantes, de outra pessoa, do futuro, em que as pessoas adquirem habilidades além de sua capacidade normal, ou quando o cérebro está aparentemente não funcional, foram documentados em contextos anedóticos e experimentais – fenômenos onipresentes no mundo todo.
Os autores* explicam que, se for estabelecido que o cérebro possui propriedades biológicas quânticas, ele talvez tenha propriedades não locais, de modo que nosso sistema sensorial estaria espalhado no espaço e no tempo, e também poderia ter propriedades observacionais. No entanto, isso ainda não nos diria nada sobre a natureza ou a fonte de nossa consciência subjetiva. Ou seja, da perspectiva do cérebro quântico, esses fenômenos seriam completamente explicados como fenômenos puramente físicos (embora dentro do contexto da natureza não exatamente física do mundo quântico). “Estamos em uma posição semelhante à daqueles que estudavam a possibilidade de buracos negros há um século. Talvez em 50 anos, olharemos para trás, para o atual período de transição entre os paradigmas materialista e pós-materialista na ciência, e entenderemos mais claramente por que não poderíamos ter compreendido o quadro completo. (…) No processo de determinar se a consciência é não local, poderíamos descobrir aspectos sobre os quais aprenderíamos mais e controlaríamos até certo ponto; nosso mundo seria radicalmente transformado com a mudança na compreensão de nossas capacidades e suas aplicações práticas. O estudo científico sistemático da consciência ainda está em seus primórdios e, portanto, estamos apenas começando a entender as perguntas certas a serem feitas.” (*Helané Wahbeh, Dean Radin, Cedric Cannard e Arnaud Delorme, do Instituto de Ciências Noéticas, do Centro Swartz de Neurociência Computacional e do Instituto de Computação Neural nos Estados Unidos).
Místicos orientais fazem perguntas certas há milênios, com a mente aberta. Nossas mentes ocidentais presas à razão, no entanto, precisam das voltas e reviravoltas do tempo. Como disse Max Planck, “uma nova verdade científica triunfa não por convencer seus oponentes e fazê-los ver a luz, mas sim porque seus oponentes eventualmente morrem e uma nova geração se familiariza com ela”.
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Foto de Capa: Montagem digital da Autora.

